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segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Viagem

Viajo pelos teus beijos,
São milhas sempre a somar,
Não levo outros desejos
senão o de te encontrar.


Por estradas do meu devir,
Por rotas dos meu querer,
Não conheço outro luzir:
És eterno amanhecer.


Foi o Destino traçado
Por astros sempre a rodar...
Mentira não se conhece


Lida no Céu revelado,
Mas jamais amanhece...
É eterno o viajar.

domingo, 13 de Dezembro de 2009

a tua irmã, fez ontem anos, não foi?
12 do 12

as Origens do drama


Neste post, relato na íntegra a história do meu amor por Inês, para que se perceba melhor porque tanto a procuro. Podem fazer download, copy-paste, passar de mão em mão e até enviar-me pistas sobre o seu paradeiro.

Inês era uma virtuosa pianista. E escrevo "era" porque… um problema com o álcool não só lhe arruinou os nervos, como lhe entaramelou o talento e sobretudo… sobretudo, lhe descoordenava os dedos: falhava teclas, a linda Inês.

Desde há muito que a conhecia, mas sempre considerara certas manifestações de excentricidade como marcas de um génio criador! Só me apercebi verdadeiramente da dimensão do drama para o qual deslizara a Inês, quando num dia, por mera casualidade, me surgiu em Tomar, por ocasião dum Festival Medieval e nela tropecei, enquanto actuava entre jograis, artífices e mercadores.

Descobri-la tão só, carente, emocionalmente devastada, foi do menos… como não me aproveitar? Pelo contrário, foi na reflexão que não tive, que me perdi e fui atrás dela!

Fomos beber, não apenas porque se organizam festivais no estio também para isso, mas porque Inês bebia bem e pouco não lhe bastava! Nada de mais, de resto (isto de beber copos), entre dois amigos reencontrados, lembrando histórias antigas, comentando percursos e … coisa curiosa: traçando planos para o futuro! Desde logo Inês se entusiasmou com a minha obra lírica nascida e eu desde cedo aceitei com bastante deleite que ela me desse música, significando com isso que me musicasse os poemas... Selámos o princípio da nossa colaboração artística com um shake-hands e outra Macieira.

E depois… Bom, depois para não dar azar, pedimos nova rodada e assim seguimos pela tarde fora, macieira atrás de macieira, porque três era a conta que Deus fez, quatro para brindar ao Teatro e por diante a despejar matemáticas de mudas semicolcheias e versos falhados…

Estariam destinados a falhar? Sem tempo para ressacas emocionais, subimos pelo poente ao Castelo dos Templários e lá no topo da colina, por entre as ameias, ao longo das muralhas, erguidas ao Tempo, era impossível que não me viessem à cabeça, mesmo bêbada como estava, miragens de guerreiros árabes chocando contra cavaleiros cristãos. Que viva imaginação, não..? Mas as macieiras tinham sido algumas...

Estávamos todavia sós e o cenário ajudava, mas a prova irrefutável do meu fraco lirismo foi que nos pusémos a jogar não libidinosos duelos, mas Xadrez! Como desencantou ela o tabuleiro? Nunca me quis dizer. Mas foi uma partida de Xadrez que pautou a escrita dos primeiros versos para a Inês que quero ainda ter por rainha do meu Castro!

Eu estava com as pretas – e jogava, portanto, pelos mouros – tentando prosseguir no tabuleiro as lúbricas investidas em que teclara ao longo da tarde…

Por isso escrevi:

Do Levante vem moreno,
Aquilino e de turbante…
Esse arábico veneno.


Aquilo era mais do que um jogo! Parecia uma guerra de verdade com exércitos avançando, geopolítica e baixa diplomacia. A situação era complexa e Inês, a Inês que ainda não se sabia de Castro, pôs-se a pensar, a pensar… pseria na jogada seguinte?

Estávamos num impasse do jogo e do romance, mas de coração acelerado e espírito ébrio, prossegui eu o poema:

Oh sedutora e sediciosa amazona…
Mostrarás tu à Península agachada,
Que a coragem vem de dentro, vem à tona,
Nos teus olhos visionários de fadada?


E o que me responde Inês? “Roque” foi a sua resposta e fez aquela jogada do Xadrez na qual o rei avança duas casas para o lado por troca com a torre, assumindo uma forte posição defensiva.

Ora Roque em inglês diz-se Castling. Castling!
Daí ter escrito “Pois à Menina do Castling” - que é como quem diz:

À Menina do Castelo
Sua égua presto selo.
Dou-lhe a espada, a malha d’aço,
Mais o escudo brasonado para o braço.


E de elmo emplumado a pena branca,
Tão airosa com o olhar conquistador,
A intrépida mocetona lá desanca
Sobre o mouro, o infiel, o Almançor.


O Almançor foi um famoso guerreiro árabe medieval que lançou o pânico na Península cristã… Mas no fim… Tanto na Península, como no poema e na partida, as pretas jogaram… e as pretas perderam. Como costumam dizer, porém, azar ao jogo, sorte no amor. Éramos dois mamíferos em pleno Estio e já bem embalados de Macieira, nos enfrascámos de mãos dadas, fazendo o que dois adultos responsavelmente bêbados por vezes fazem.

Claro! Claro que nos sentimos constrangidos. Era necessário pousar um certo recato. Ela, então, corava em prantos, arrependidíssima, como estava!

“Não, isto não pode ser!” – dizia-me – onde já se viu uma colaboração artística acabar na cama? “

“Bom… realmente, ora deixa cá ver, só com o pianista Mário Laginha e a cantora Maria João, os escritores Simone de Beuavoir e Jean Paul Sartre, os pintores Diego Rivera e Frida khalo, os ladrões Bonnie and Clyde, o Zé Pedro dos Xutos e a Xana dos Rádio Macau… Queres que continue a lista? Estou de ressaca e já me dói a cabeça”

“Mas Não! – replicava a Inês – Tu não me conheces, não sabes quem sou. Eu não sou a tua terra prometida das vinhas e do mel, poeta parvo! Nada florirá no fel em que me tornei… e eu… eu apenas posso destruir quem se aproximar demasiado de mim! Pára! Pára agora que apenas te posso arrastar para os abismos alcoolizados da macieira na qual mergulhei. Afasta-te! Afasta-te enquanto é tempo poeta parvo!

“Não digas asneiras, Inês” – pedia-lhe eu.

“Não digas asneiras tu” – insistia a Inês – “A tua Inês de Castro não existe. Não existirá jamais! Não há aqui nenhuma Inês de Castro! Tudo não passa duma figura literária que criaste na tua cabeça. Diante de ti tens apenas a Inês do Cacho! Será que não te cheira?”

Ela bem me avisou mas tonto de amor, sob efeito ainda da muita Macieira tragada, tornei-me também lírico e contrapus:

“Apenas tenho olhos para os teu encantos e mesmo se de nesga miro essas nuvens negras acasteladas em teu redor, não serão tão absurdos presságios que me farão render. Não! Nunca! Não! Jamais te largarei de vista!”

Era bom o nível de argumentação, mas a senhora nitidamente fazia género e ia a jogo:

“Vá afasta-te” – como quem diz: “de que, estás à espera? Beija-me!”

“Isto não vai dar certo” – no que deveria ser traduzido por: “pega-me pela mão”

E aquela não era situação que devesse ser ultrapassada simplesmente a goles de Macieira! Sentindo que era necessário recorrer à artilharia pesada, fiz birra, virei-lhe as costas e puxei pela cabeça, para poder responder à minha linda Inês do seguinte modo:


O Futuro era agora

És, querida, o meu Breton,

Mais fogosa que baton

Rubro, rouge e escarlate,

Desses que tu nunca usas

Pra imitar plásticas musas

Que pousando, julgam arte,

As vaidades alabastrinas

Com que entopem as latrinas.

São fogo-fátuo e fraco néon

De revista “cor-de-rosa,”

Com que publicista ousa

A nós todos impor tom.

Mas hás tu!

És tu a revolução surrealista,

És o corte epistemológico,

Digital e analógico,

Iconoclasta e simbolista!

Mais concreta que o betão,

Só a utópica ilusão

Com que pregam os teus olhos,

Tua fé e os meus sonhos:

São apóstolos risonhos

A cujos pés se estala o mar.

E a maré que vindo, vem enchendo,

E nos invade as fortalezas construídas

Por aquela areia granulada, muito fina,

Com que erguemos pela manhã

Em pueril descontracção,

As muralhas destinadas

A barrar o mar, as leis da física,

Mais os astros em rotação.

E depois..? Bom… havia alguns restos de Macieira dentro da garrafa e fizemos o que dois adultos razoavelmente ressacados por vezes também fazem na manhã seguinte.

Todavia… O meu instinto de sobrevivência não estava totalmente embriagado. Bem sabia que esta Inês era um sarilho andante... um desconcerto sem emenda, fadada como estava, a virar a minha vida do avesso. Não por lirismo escrevera “És tu! És tu a revolução surrealista”.


Mas eu tinha caído, não é? Finalmente encontrara uma rapariga ainda mais… como dizer… ainda mais surrealista que eu! Tinha caído pela promessa de encantos e de sombras: Nocturnas de Chopin e versos de Sophia de Mello Breyner por serões sensualistas, servidos de Macieira… Seria lindo: um amor e uma cabana... lindo, mas não para o fígado.


Por isso, um resto de lucidez espicaçou-me a não olvidar a minha elevada responsabilidade lírica. Sim, porque eu poeta de maus versos, julgava-os bons! suficiente válidos para serem legados às novas e vindouras gerações. Portanto, porque era a Macieira, logo tratei no início do meu namoro com Inês, escrever o meu Testamento:

Auto-retrato do artista enquanto jovem

Sei que fui belíssimo.

Nas minhas fraquezas existi.

Fui um grego veríssimo,

Um fresco de Boticelli,

Um suspiro de Camões,

Uma vontade em ser.

Concentrei numa todas as paixões,

Mordi a maçã, caí no abismo

E solavei a terra como sismo.

Revirei, revolvi, tudo aos trambolhões!

Sobretudo fui, tentei ser,

Ousei sonhar alto sem desfalecer,

Sem perder a fé ou o ânimo,

Sem medos ou remorsos a roer,

Pois sei que fui belíssimo,

Fui um Ícaro nas asas dum amor,

Todo ele martírio e dor.

Fui um grego veríssimo

Nas fraquezas e nas forças.

Foram algumas.

Fui!


Apesar de tudo, os piores presságios não se confirmaram e durante anos pudemos construir uma relação sólida e também um pouco mais sóbria! Tínhamos um amor e uma cabana. Sobretudo amor que não carunchava!

Com o tempo e certos ajustamentos fomos ganhando rotinas e cumplicidades, mas também bastante resistência à Macieira. Éramos inseparáveis, almas gémeas na cama, na cabana e na carreira! Pois acabámos por juntar forças e puxar um esquema: Inês tocava órgão e eu tirava fotos em festas de casamento. Também lançava cartas de Tarot e fazia outros truques de magia com a minha bela assistente. Com alguma perícia, ao fim de alguns copos-de-água, já nos abastecíamos de alguns comes e bebes para o resto da semana e com as poucas despesas que fazíamos, com excepção das aspirinas... Não seria o Céu, mas também não estava mal de todo para um par de artistas de rua a actuar indoors… E tínhamos, sobretudo, bastante tempo livre para nos dedicar ao culto das belas artes... e das belas Macieiras!

Mas numa manhã de Maio, o carteiro - tal como no filme - tocou duas vezes. O tão ambicionado Juízo foi soprado à Inês na forma de carta: A Virtuosa pianista era chamada a prestar provas. Provas da sua reabilitação!

Metodicamente, depois de se recompor do choque emocional, com duas Macieiras e algum alarido de rajada, Inês arregaçou as mangas, fechou a garrafa e foi ressacar. Só algum tempo depois começou os ensaios, tocando dia e noite o bendito concerto a ser testado. Não tardou que tivesse a música na ponta dos dedos. Parecia perfeito… Sei lá… eu era melado, mas não tão melómano assim! Mas ela insistia e teimava que lhe falhava o dedo mindinho num dó em semi-fusa em certa passagem mais traiçoeira…

Num certo dia de ensaio, dedicou-se em exclusivo àquele trecho. Foram horas a fio, tocando o trecho como disco riscado, sempre encravando no mesmo risco de pó, pois uma e outra vez, se queicxava do mesmo a Inês: “falha-me o dedo mindinho no dó em semi-fusa, falha-me o dedo mindinho no dó em semi-fusa”. Bebeu uns copos de Macieira a ver se acalmava os nervos. Qual quê! Começaram os dedos a falhar mais teclas. E ela naquilo sem parar! Até que martelou enfim simplesmente o piano…

Eu mal respirava encovado sobre mim num canto à espera… que começasse a injuriar-me com todo o vocabulário feminista disponível:

“A culpa é toda tua, toda tua! Sufocas e suprimes-me toda a sensibilidade! “

E eu nada.

“Ficas pelos cantos a escrever, que é o que melhor sabes fazer. Ou antes, aquilo que gostarias tu de saber fazer porque nada escreves que se aproveite. Não escreves um peido, poeta parvo! Um poeta que rima… Ora onde é que já se leu, nos dias de hoje, poesia a rimar..? Por amor de Deus, não me faças rir, que mais teclas falho! E eu ainda tenho que aturar um machista! Sim, um machista! Dás de mamar a tua fraca fantasia com a minha demência, minha decadência e desventura!

Sim! Não faças essa cara! Vocês, homens… vocês homens são todos iguais! Todos iguais! A diferença entre ti e os outros é que, para além de contabilizares as que gajas que papas, também deitas contas aos versos que escreves…”

Ela estava nitidamente perturbada, agitava-se muito e espumava já da boca quando se lançou a mim. Na minha inocência ainda julguei que ia ser abraçado. Era bom era! Abraçou-me foi o pescoço! cerrando os seus longuíssimos e endurecidos dedos de tanto tocar piano.

“A culpa é toda tua, toda tua!”

Estava possessa e esmagava-me o peito com seus joelhos enquanto as mãos me estrangulavam o pescoço. “ A culpa é toda tua! Toda tua!” a minha nuca batia contra o soalho, “a culpa é toda tua!” e os meus olhos, turvados, já viam tudo a dissipar-se quando, de repente, a Inês se levantou de estalo. Ergueu-se muito alta, muito hirta e mirando os dedos, mirando-me a mim, tornando o olhar para os seus dedos e vendo-me estendido no chão, exclamou, revirando os olhos enquanto me desfalecia em cima o trágico suspiro: “escreve escriba, escravo da escrita, escreve!”

Velando incansável à sua cabeceira, lívido vivi o longo knock out de Inês, que sossegou durante 2 dias. Quando acordou, deu um pinote, pulou para o chão e exclamou jubilosa: “bom dia, alegria!” – acrescentando com líbido: “vai servindo duas Macieiras, que eu abro a lata de atum para o nosso pequeno-almoço.”

E se esta nossa história era até então macieira, mel ou drama... descambou, com este episódio, de vez para o drama!

A Inês abria lampeira a lata de atum, com aquelas mãos que ainda lhe tremiam da fraqueza e da comoção, com seus dedos descoordenados, quando – ai terrível maldição! “Aaaaaaaaaaaaah!”


Ao escutar aquele grito - “Aaaaaaaaaaaaaaah!” – larguei tudo, larguei até a Macieira e corri para a cozinha, deparando aterrorizado e sem pinga de sangue, com o dedo mindinho… o dedo mindinho da Inês, aquele que teimava em falhar o dó em semi-fusa, completamente ensanguentado pela abertura mal medida duma maldita lata de atum! Oh Cristo! Tinha-se cortado a Inês.

E decerto porque éramos duas almas perdidas, sem dúvida porque estivemos na presença de sangue, talvez porque a gata miasse e a Lua estivesse Cheia… quando eu, ao ver retalhado o dedo mindinho da Inês, exclamei aos 4 cantos da cozinha “Diabos me levem! Diabos me levem se não te salvo do vício da bebida, linda Inês!”; sucedeu que logo de seguida, o Mafarrico em pessoa, Ele mesmo, resolveu dar um ar da sua graça, já de copo de Macieira na mão!


Diante do Demónio, ficámos escancarados de boca aberta, mais parecendo os três pastorinhos diante da Nossa Senhora de Fátima: Eu, a Inês e a sua gata, a famosa “gata Sinatra”.

A “Sinatra” sei eu bem que viu o Capeta pois de pêlo eriçado raspou-se enquanto o Diabo esfregava um olho… A Inês viu e escutou a Coisa-ruim porque me disse: “olha que giro… Eu já não tinha uma visão alcoólica induzida ora… deixa ver… Ai! E fala e tudo! Esta agora! Está-me a pedir duas pedras de gelo…!”

Riu-se a Inês e partiu de abalada e em urgência para o Hospital São José onde lhe coseram – exagerou depois um pouco ela - 36 pontos no seu dedo mindinho…

E eu… bom, eu fiz o papel duma espécie de Irmã Lúcia invertida, escutando a pregação que Satã tinha a fazer aos homens e pondo-me à conversa com ele.

Belzebu não tinha nada de concreto para vos dizer, mas a mim disse-me ele muito. Primeiro, explicou-me que dado que eu nunca iria libertar a Inês do vício do álcool, viera buscar-me – para me poupar muitas maçadas e mais Macieiras. Todavia, fingindo comover-se, confidenciou-me que sendo eu um jovem tão talentoso, era de todo um desperdício levar-me já... deveria suspirar de alívio?

Eu desconfiava, claro! porque se insondáveis são os desígnios de Deus, necessariamente manhosos são os meios do Mafarrico… Como lhe fizesse ver isso mesmo, atalhou na bajulação, passou à segunda Macieira e propôs-me uma aposta.

“Uma aposta!” – Exclamei eu. “Para fazer uma aposta mais vale vender-te a alma não achas?”

Não, Satanás não estava de acordo. O Bode andava nas lonas e era agora um pobre Diabo. Um cibernauta – contava-me ele - através da Internet, fizera um gigantesco desfalque nas contas secretas que o Príncipe das Trevas tinha na Suíça e, pior que tudo, sucedera isso quando certos acordos com a Banca tinham sido firmados... “É triste dizê-lo – chorava-me – mas nos dias que correm, até o grande Lúcifer é um cordeirinho nas mãos da banca capitalista.”

Vivíamos tempos de crise. Tampouco o Diabo podia transformar pedras em pepitas ou fazer o milagre da multiplicação dos euros porque havia um pacto de estabilidade a cumprir. Sim, um pacto de estabilidade a cumprir! Ou vocês acham que foram os burocratas da União Europeia a cozinhar este purgatório..? Abram os olhos, meus amigos!

O Diabo ainda tentou o narcotráfico, mas nestes tempos tão agitados… as máfias russas têm mais poder de fogo e maior influência que o maquiavélico Mefisto.

“Uma tristeza” – Concluía o Arcanjo da Luz. “E tive de dedicar-me a negócios estúpidos e realmente marginais como vender Enciclopédias, carros em segunda mão e até “francesinhas”. Tinha, por isso, Lúcifer uma cadeia de fast-food baseada em “francesinhas”… “As francesinhas do Inferno com extra-picante!” – o que não deixava de ser diabólico: impingir às gentes inocentes comida com alto teor de gordura.

“Assim, como assim, sendo tu um talento por explorar – continuou ele – proponho-te uma aposta que nos pode render muito… muito, sem dúvida.” – e o Diabo esfregava as mãos de contente… – “Se tu escreveres todos os dias, até ao Solstício de Verão um poema para a Inês… Eu liberto-a do vício do álcool, publico-te a obra lírica que será um extraordinário sucesso literário, ganho milhões, ficas famoso e todos ficamos felizes… Que dizes filhinho..?”

“E se eu perder… “- retorqui…

“Se tu perderes deixo a Inês entregue a si mesma, que é como quem diz, à sua Macieira. Reúno o que possa dos teus versos e engendro-te um espectacular suicídio, pois toda a gente sabe que depois de morto o artista rende mais.”

“Mas assim nunca perdes Mefistófeles!”

“Por alguma razão ainda me chamam Diabo…”

Não pensem que eu não tinha confiança na capacidade do meu amor para salvar A Inês do vício do álcool… Mas publicar… Neste país, publicar poesia só com um grande padrinho ou pactuando com o Manhoso! Ora, como o meu padrinho é um bate-chapas ali na Av. Gago Coutinho… Resolvi apostar com o Mefistófeles. Tudo selado com boa Macieira, claro.


Então comecei a escrever. Escrevia para a Inês ou para o Diabo? Para minha vaidade ou para a sua salvação? Ainda hoje não sei! Sei que escrevia, tinha de escrever todos os dias. E não podia ser um qualquer poema rasca como:

"A Inês do meu castelo

Põe-me a ver tudo Belo,

Desde o Sol que é Amarelo

Até este ovo que eu estrelo."

Convém confessar que a nossa dieta era constituída algo à base de ovos, atum... e muita Macieira.

Não, não podia escrever coisas ranhosas que o Diabo não era parvo nenhum e queria ganhar dinheiro. Desta forma, para avaliar a qualidade das minhas criações, tratou de reunir o Clube de Poetas Mortos (líricos como eu que já tinham, entretanto, batido a bota). Não só tinha de escrever todos os dias um poema, como tinha também de ser uma espécie de obra-prima… De arrasar com os nervos de qualquer um, quanto mais os meus, que já eram tão delicados!

Eu todavia estava animado por um ideal: Salvar a Inês do vício do álcool, resgatando para o mundo essa virtuosa pianista que caíra na esparrela das Macieiras. E sabem que mais? Estava a dar baile ao Diabo! Escrevia desde os seus olhos verdes, aos eléctrico que apanhava a Inês para ir para casa…

0 28 da Carris

Há um eléctrico desejo

Percorrendo as colinas,
Dissipando as neblinas
Sobre o pardo, triste Tejo.

No vrum vrum da confusão
Vai de mansinho rolando,
Nos carris vai-se esquivando
Ao tropel do buzinão.

Pois lá dentro há uma paz
Envolvendo o nosso herói
- O peito já não lhe doi...
Conquistou-a, foi audaz!

Desde a Baixa até à Estrela
Com paragem no Castelo,
Em tudo vislumbra o Belo,
Pois não tarda, está a vê-la.

Dava ou não baile ao Diabo? E Mefistófeles, vendo que dançava à medida que o solstício se aproximava... maquinou um esquema: para não perder a aposta, engendrou-me uma acusação de plágio. Plágio... que descaramento!


Eu só usava originais! Se ainda fosse acusado de mau gosto ou mediocridade aceitava, que o poema em questão não era grande espingarda… Foi construído a partir duma passagem d' O Vermelho e o Negro que estava lendo... Agora plágio! Que grande lata! Simplesmente me inspirava...


Porém, a Verdade era o que menos interessava ao Mafarrico que, para além de mau, também não tinha bom perder


Apresentou queixa Mefistófeles ao Tribunal dos Poetas Mortos mas, ao contrário da Justiça portuguesa, o processo rolou com grande rapidez. Num ápice, enquanto o Diabo esfregava um olho, fui como que "teletransportado" e, sem saber muito bem como, vi-me numa sala de audiências com o juiz diante de mim:


E era ele senão… O Fernando Pessoa himself, encontrando-se muito bem conservado em álcool tal como já o fora em vida! A meu lado estava o Diabo, e atrás deste os seus advogados que eram – acreditem! - às centenas, aos milhões, às toneladas! Lírico como sempre fui, esquecera-me que às tantas… às tantas, 9 em cada 10 advogados iam direitinhos para o Inferno!

E olhem que eram mais do que as mães! Todos em linha, pesquisando processos, consultando códices, lendo legislação à procura dum precedente, duma falha qualquer, de um esquivo argumento jurídico com que pudessem condenar. Até deitavam fumo pelas orelhas, todos em fila, fato e gravata, quilos de gel no cabelo todo puxado para trás… que horror! Era mais intenso o cheiro do gel do que o cheiro a enxofre exalado pelo Diabo.

Ainda assim, não me ralei. No fim de contas, a razão estava do meu lado e o Fernando Pessoa à minha frente… como é que eu podia perder?

Só mesmo com jogadas sujas.


Modéstia à parte fiz uma defesa brilhante: a Macieira ajudou! Tão rebuscada foi - a Macieira -que até invoquei o Camilo na minha argumentação ao Juíz, afirmando que plágio era o Amor de Perdição, cópia barata do Romeu e Julieta, pois tanto num, como no outro, dois jovens amam-se apesar das desavenças familiares e do triangulo amoroso artificialmente criado por um primo parvalhão... No fim... No fim morria tudo...

Foi muita a minha conversa, mas maiores os pecados de Satã. Mas seria de estranhar? Se o Diabo não pecasse… quem pecaria? E na verdade, pecou o Mafarrico duas vezes: primeiro subornou o juiz e depois… foi de uma atroz avareza!

Não que tivesse pago pouco por debaixo da mesa ao Fernando Pessoa: as "francesinhas do Inferno", afinal pareciam ter saída! O problema, ou o pecado – se preferirem -, foi ter deixado de fora os seus heterónimos - dele Pessoa. Por fortuna era Quarto Crescente, a Lua ia alta e a personalidade dominante do momento era o Álvaro de Campos.

E o Álvaro de Campos, que não fora subornado e não podia ir beber umas genebras para o Martinho da Arcada, querendo pregar uma partida ao Diabo, resolveu fazê-lo a minhas expensas, não porque me enviasse a conta, mas porque decidiu.


Ajuizou ele, Álvaro de Campos, para que não sobejassem dúvidas, que eu, poeta lírico, para o ser deveras, teria de organizar a declaração poética de amor da minha geração. Se o fizesse, se fosse realmente um Poeta com P grande, ganharia a aposta, libertando a Inês do vício da bebida. Era pegar ou largar. E eu peguei num copo de Macieira!


O resto… bem, o resto fará eventualmente parte da história literária deste país.

Fui para casa a deitar contas à vida, matutando, reflectindo e tentando sacar um coelho qualquer da minha cartola. Não era fácil: "organizar a declaração poética de amor da minha Geração"! E como tinha em mãos um problema de escala, excluí, desde logo, o bouquet de flores, o "postal cantado" ou o ursinho de peluche... Não! Tinha de ser em grande e não apenas o gesto simbólico comprado em pechincha como prenda qualquer bem escolhida...

Era espinhoso, mas eu tinha uma vantagem: tal como a Joana d'Arque, também eu escutava algumas vozes dentro da minha cabeça e uma delas sugeriu uma abordagem mais matemática da tarefa em mãos... E foi pela estatística que espevitei!

Como assim..? Assim sendo: E se eu ao invés de fazer uma tatuagem com "amo-te Inês", fizesse um graffitti? E se invés do "amo-te Inês" escrevesse a quadra?


"Quisera eu ser o Pedro

Desta Inês tão galante,

Do me Castro seres rainha,

Ser teu cavaleiro andante"


E se em vez duma quadra, enchesse o país? Bom... um país seria complicado, mas forrar a faculdade onde fingíamos estudar.... talvez não fosse assim tão complexo! Como tinha uma péssima caligrafia, logo desisti do graffiti. Mas não era tudo uma questão de escala? Pois imprimi os versos com times new roman a 200 de tamanho e montei, como se fora um puzzle, 100 painéis de 1 por 1,5 metros.

Pedi as devidas autorizações, reuni o grupo de amigos do costume e colei tudo durante a noite sem que suspeitassem faculdade ou Inês... No dia seguinte, se não fosse a poesia, seria a matemática a produzir o efeito, senão reparem: numa escola onde estudavam cerca de 3000 raparigas, bastava que uma em cada cem se chamasse Inês para termos logo 30 possíveis destinatárias da mensagem amorosa... E em turma em que houvesse uma Inês, necessariamente, pela estatística dos nomes, teriam de haver dois ou três Pedros...

A curiosidade matou o gato? Contava com isso: Para "qual Inês" e "de que Pedro", seriam as incógnitas a levantar na equação amorosa calculada. E que equação! Mais do que na poesia, tinha eu fé na patologia! Por isso fiz não 1 mas 100 painéis, pois 1 seria bonito, mas 100 foram obsessivos!

E assim foi: absolutamente lindo! Quando na manhã seguinte 5000 alminhas transpuseram os portões da faculdade, a escola já não era a deles, mas antes um imenso altar lírico no qual incensara Inês. E ela?Inês chegou pelas 3 da tarde para tomar café na esplanada da escola e caiu de quatro. Naquele pequeno Cosmos, durante um ínterim, apenas houve um Pedro que queria ter uma Inês por rainha do seu castro... Ainda assim não se fiavam as gentes (tal é o cepticismo dos dias de hoje), crendo uma elevada percentagem de que tudo não passava duma campanha publicitária, peça treatral, lista para aAssociação de Estudanters... enfim! Mas com a devida chancela do Guru... deixou de haver (sequer!) termo de discussão possível: venci o Diabo, resgatei a Inês do vício do álcool e tive, nessa, a melhor noite de sexo da minha vida. Esforçara-me, não foi? Também tinha direito!

Tudo pareceia bem, mas ainda faltava escrever o fim da história e este conta-se já em duas palavras.


Liberta do alcoolismo, Inês, virtuosa pianista, deixou de falhar teclas e foi resgatada para música, mas desfinado fiquei eu.

É certo: vi a minha poesia ser publicada… Mas houve um problema técnico. Ressabiado por ter perdido a aposta, o Diabo resolveu vingar-se. E podia fazê-lo, pois as "francesinhas do Inferno" tinham-no catapultado para a fortuna fácil e como versos vendidos já não passavam de trocos... trocou-me as voltas!

Publicou efectivamente os meus poemas, pois até Mefistófeles tem o seu código de honra. O problema foi que a aposta não especificava a localização geográfica da publicação e como um bom cabrão que era, o Mafarrico publicou os meus poemas escritos na língua de Camões... na terra dos Vikings! Reparem que não se tratava, sequer, daquelas publicações bilingues, tipo português-islandês. Não! O Diabo descaradamente editou os meus versos na Islândia sem tradução alguma.

Uma miséria! Nem sequer pude assistir ao lançamento da minha obra por não ter como pagar a passagem aérea, pois continuava sem um chavo no bolso e completamente ignorado pelos círculos literários do país - tanto no nosso, como na vikinglândia! Um enorme "sucesso", portanto: o embaixador português na terra do gelo comprou um livrito por frete e ofereceu dois no Natal.

Pior! Tinha ficado com os nervos esfrangalhados. Não era fora fácil, sabem? Lutar contra o Diabo, aturar as crises nervosas da Inês e ainda ter de escrever obras-primas todos os dias durante meses a fio, acabando por fazer a declaração de amor da minha geração… Ufa! Estava de rastos.

No fim, secara, esgravatando e nada! A inspiração tinha-se ido e já nada mais escrevia, senão arabescos. Bebi! Bebia muito e sem destino, até que ganhei eu um problema com o álcool, pois não era então suficientemente adulto para compreender os processos segundo os quais me tornara num idiota insuportável, justapondo amargura e narcisismo, tudo embrulhado numa obsessão fatalista pelos efémeros 15 minutos da fama fácil.

E de tal forma caí fundo, pela garrafa dentro, que à minha linda Inês, virtuosa pianista, outra partitura não lhe restou senão dar-me um pontapé nos tomates [literal] e chutar-me para fora da sua vida… Até hoje. Até sempre?



Rui Faustino
o Pedro que procura Inês

sábado, 12 de Dezembro de 2009

Correio Sentimental

O peregrino Martins 111 enviou-me uma mensagem.
Considerei-a de tal modo asssertiva que a resolvi partilhar com todos:

"Olha seu Pedro, Inês tem muitas...o senhor precisa é verificar quem é que está destruindo sua vida. Lamento pelos filhos que perderam inutilmente seus pais e as esposas apaixonadas mães, que perderam seus sonhos. O problema é que um grupo de pessoas no comando de nosso país, de forma carnavalesca, furtaram a dignidade da sociedade, o espírito humilde e religioso de nossa gente e agora estamos mergulhados em uma sociedade lamaçal. E na lama querido semelhante, tudo vale.

Se na tua infelicidade, ainda há esperança para o mundo, então leia e divulgue o texto a seguir. Caso contrário seremos purificados no fogo.

Certamente você está acompanhando a coligação árabe e gogue ( sobre gogue, leia o livro do Espírito Santo Verdadeiro, facilmente disponível na internet gratuitamente) Acontece, que esta manifestação humana está profetizada desde o tempo de Abrão o patriarca dos israelitas e árabes. Trata-se de uma disputa pela benção da primogenitura e domínio do planeta por parte da religião vitoriosa. Como temos visto nos últimos dias, o Sr Ahmadinejad, presidente do Irã, assumiu essa idéia. Motivo verdadeiro pelo qual veio ao Brasil. Resta apenas a Rússia se comprometer em liderar a coligação.

Objetivo da coligação é fazer com Israel, o mesmo que foi feito com Iraque. E a profecia está amplamente divulgada por todos os profetas inclusive por Jesus em (Mateus 24). O Profeta Ezequiel no capítulo 38 e 39 da Bíblia é específico sobre o assunto. Se isso tem alguma relação com as previsões do final dos tempos a partir de 2012, pode ser. O fato é que países como: a Vezuela, Bolívia, Líbia, Síria, etc... Já deram seu apoio publicamente ao Sr Ahmadinejad.

Se você ler as revelações no Livro Espírito Santo Verdadeiro, ficará realmente convencido de que estamos vivenciando uma pequena calmaria, antes de uma desgraça que vai definir a vida no planeta terra.

Daí porque gostaríamos que esta mensagem viajasse mundo a fora. Porque ninguém jamais pensou, que os bons evangélicos estadunidenses pudessem detonar sobre Hiroxima e Nagazaque, cidades Japonesas repletas de crianças, duas bombas nucleares. Ora, muito maior motivação tem os povos árabes de nos levar a um conflito atômico a partir de Israel. Você pode se calar e vê acontecer. Ou, você pode nos ajudar a impedir tal fim. Para salvar sua humanidade, sua nação, sua comunidade, sua família, sua vida, simplesmente faça circular este aviso fundamental."


http://livrodoespiritosanto.webnode.com.br/
http://avisosdoceu.webnode.com.br/links-/
http://verdadedabiblia.webnode.com.br/

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

Eu fui uma prostituta lírica


Neste post podem encontrar a publicação integral do conto "Eu fui uma prostituta lírica"

- alegoria escrita do deboche pelo qual me perdi, perdendo a Inês.

Podem fazer download ou copy paste e também enviar pistas.



"Meus amigos, eu fui uma prostituta lírica. Sim, confesso-vos com as sílabas todas e o coração nas mãos: eu fui uma prostituta lírica. Escrevera o poema para uma dama, inventara o truque da carta para a sua mana e reciclando versos, servindo-me de uma velha manha, tentei seduzir uma terceira… uma terceira “bacana”!

Eu não estava apaixonado, simplesmente despeitado. Eu ia mostrar a duas manas, duas manas de pequenas mamas e grandes psicodramas, com quantas canas se fazia… Uma artimanha. Estava farto de ser um banana… Um banana nas mãos das duas manas mais interessadas em sacar poemas do que em sacudir o poeta… Não sei se estão já a fisgar as piranhas que eram as duas manas tão doidivanas com suas grandes patranhas e pequenas mamas..?

É certo que, por vezes, íamos os três para a cama, com grande sanha “foder à canzana”… Mas só de vez em quando, pois ao longo de muitas semanas simplesmente vivíamos enredados em psicológicas tramas: eu e as duas maganas. Por isso, porque estava farto, meus amigos, resolvi saltar do barco.

Quando pela vez primeira vi a Julieta percebi que ela era a vítima ideal para dar uma lição nas duas manas… Até porque esta Julieta tinha grandes mamas! Fui ter com ela e fingi que a convidava para representar um papel num filme que fazia de conta fazer: as aventuras do Capitão Ad Hoc. O filme nunca foi rodado, mas eu tampouco me ralei… Graças à cantada cinéfila pude conhecer muitas jovens e belas raparigas… Essenciais à produção da minha obra lírica. Esta foi apenas mais uma a quem eu tive o descaramento de dizer que tinha um visual muito… cinematográfico!

“Sobretudo com as tuas meias cor de laranja” – disse-lhe eu, lançando o isco.

“Meias cor de laranja? Mas como é que tu sabes que tenho meias cor de laranja?” – Inquiriu ela.

Realmente como é que eu me lembrava… Ocorreu-me que numa manhã de Inverno, havia muito tempo atrás, a menina trouxera uns collants cor de laranja. Ela podia até não ter muito jeito para a representação mas aqueles collants… aqueles collants vistosos, exuberantes, cor de laranja… aqueles collants encheram o meu ecrã! E respondi-lhe, portanto, assim:


Senhorita bem coquete

No primor com que se arranja,

Saia preta e o topete…

Duma meia tão laranja.

Usa blusa assim garrida,

Colorida como a vida

E cingido à cintura,

Casaquinho traz que abafa,

Salto raso e a postura

De quem gira numa estafa.

Uma mala a tiracolo

Com baton e caderninho

E a certeza dum consolo

No final do seu caminho.

É verdade que escrevera este poema para a primeira das manas, das manas de pequenas mamas… mas também não tinha culpa que a minha poesia tivesse um carácter universalista e os meus versos pudessem encaixar que nem uma luva em muitas raparigas… E como boa prostitua lírica que era, aparentei ter escrito este poema para a Julieta das meias cor de laranja.

Mas, sabem que mais? Não ter escrúpulos compensa! A senhorita ficou deslumbrada, descobrindo-se descrita em verso. O poema foi uma lança em África e continuei a ofensiva lírica ao longo de duas suculentas horas… Acreditem, meus amigos, como eu toquei os violinos!

Quando me disse que se chamava Julieta Espírito Santo perguntei logo se era filha do banqueiro, pois versos não pagam as contas no fim do mês.

“Não, mas tenho conta no banco” – Respondeu.

“Que pena” – pensei. Mas não deixava de ser uma grande coincidência! E um plano começou a esboçar-se na minha cabeça. Sim, um plano! Porque na política como no amor, a estratégia é mesmo fundamental.

Despedi-me no fim, garantindo que lhe entregaria o poema escrito… O poema da meia laranja. “Nem que tenha de passar por mil provas, gentil senhora” – Arrematando o lance num excesso de teatralização! E assim me fui, pensando como o mundo era mesmo pequeno. A Julieta era depositante do Banco Espírito Santo… onde trabalhava a Dona Lurdes.

A Dona Lurdes era bancária, amiga da minha mãe e fã da minha obra lírica. O mesmo é dizer: a pessoa certa no lugar certo. Porque ao fim e ao cabo - pensem bem - quantas “Julietas” Espírito Santo com 23 anos e vivendo no Feijó poderiam ter conta aberta no Banco Espírito Santo? O que fiz a seguir era totalmente imoral e também podia dar pena de prisão… Mas, com a maior cara de pau deste mundo, fui ter com a Dona Lurdes e pedi-lhe que me desse o endereço da Julieta através da pesquisa dos ficheiros informáticos do Banco.

Como boa fã da minha obra lírica, a Dona Lurdes prontificou-se logo a fazer o jeito, recomendando-me de permeio que me alimentasse melhor: “andas muito magrinho, querido, elas deixam-te seco!” – sentenciou. Mas já posse dessa informação supostamente confidencial, poderia escrever à Julieta uma carta de amor…

Eu tinha inventado o truque da carta para a segunda das manas, das manas de pequenas mamas e para além de muito bom, o truque da carta era muito simples de concretizar. Não sei se já fizeram colecção de selos... Eu já. Fiz quando era adolescente e como agora, feito marmanjo, me tinha tornado uma prostituta lírica… Para além de reutilizar os meus versos, também reciclava os meus selos.

Os selos nas cartas são colados no canto superior direito do envelope, de modo que, se eu colasse no canto desse canto (mesmo no cantinho direito) um dos selos da minha colecção que estivesse apenas carimbado no seu canto superior direito… Pareceria que o envelope levara o carimbo de esguelha, mas que mesmo assim fora carimbado. Era como se o empregado dos correios estivesse bêbado em serviço. Coisa aliás nunca vista, diga-se: um carteiro bêbado…

Mas não podia ser um selo qualquer carimbado no seu canto superior direito. Não! De preferência tinha de ser giro e de um destino necessariamente exótico.

Sei lá… Singapura, por exemplo. Colava o selo no envelope, num daqueles by mail, com os tracinhos azuis e vermelhos e escrevia no destinatário o nome da Julieta e respectivo endereço.

Julieta Espírito Santo

Rua do Assim- assado, nº 3

2650-701 / Feijó

Já quanto ao remetente bastava inventar. Era giro pensar que Rui Faustino escrito ao contrário se lesse Onit Suafi Ur. Era giro, não era? Ainda por cima, “Ur” na antiga língua dos caldeus, significava “O Princípio”… Era giro, místico e às tantas… Às tantas até vive em Singapura um fulano chamado

Onit Suafi Ur.

na Liberty Street, nº 7

Por fim, ao invés de escrever no código postal 1100/ Singapura, como esta foi uma colónia britânica, acrescentava, para dar maior realismo:

Queen Victoria District.

Singapore.

Estava feito! Uma carta de Singapura primorosamente forjada. Agora só tinha de a meter na caixa de correio da Julieta, sendo mesmo preciso ir até ao Feijó pôr o raio da carta, porque os CTT não entregam este tipo de correspondência!

De abalada parti eu à procura do Feijó que ficava longe como “o caraças”, onde nunca estivera e não fazia bem ideia donde ficasse. Perdi-me, claro. Se isto era assim para entregar a carta… pensei para os meus botões enquanto dava corda aos sapatos.

Porém, dentro da carta estava o poema. O poema que ela escutara numa das mesas da esplanada amarela e que eu jurara entregar-lhe desse por onde desse… E muitas voltas depois, lá dei, lá fui ter ao Feijó e à rua certa. Deixei a carta e raspei-me.

Depois… era só esperar! Esperar, esperar o dia seguinte quando ao abrir a caixa de correio a Julieta, ao invés de encontrar a conta da luz para pagar, desse de caras com a carta: A carta de Singapura!

Ponham-se os meus amigos nos pés da donzela, não tida nem achada no final da rua, quanto mais em Singapura. “Singapura? Mas é mesmo para mim… o nome, o endereços certos. Mas como, como se eu não conheço ninguém na Serafina, quanto mais em Singapura!?”

Mais palavra menos suspiro, o choque seria sempre grande (a experiência mo dizia…) e depois de abrir a carta… a descoberta do poema que escutara na véspera: enfim, um mimo!

Restava-me esperar, contudo, pela reacção dela. Não tendo nada para fazer, saquei da caneta e comecei a escrever. Assim, como assim, já adiantava trabalho de casa. Um escritor escreve – eu, pelo menos – com base nas suas vivências, observações, impressões e sensações proporcionadas pela vida. Da vida do escritor ou dos outros, não interessa! Que eu nestas coisas da escrita fartava-me de vampirizar a vida alheia. Como não tinha qualquer tipo de vivência ou convivência com a Julieta, sendo porém uma prostituta lírica, socorri-me de recordações que tinha das manas, das manas de pequenas mamas, quando íamos os três com grandes “bezanas” dançar umas valsas.

Saiu assim o poema:

Quando a música se calou

Estávamos os dois a um palmo,

Olhos nos olhos e o tempo parou…

Quando os corpos se aquietaram

Até nós deixámos de dançar,

Mas os olhos… os olhos teimaram em falar

Por cima das palavras de circunstância

Trocadas entre nós, dois estranhos,

Comigo preso nos teus castanhos

Indomado no ardor e ânsia,

Gesticulando, disparatando e rindo

Sem querer acabar o que era findo…

Quando acenderam a luz

Terás tu visto claro? Viste casto?

Viste nos meus olhos amor vasto?

Pois por cima das palavras…

No fim da festa em que estavas,

Disseram-te os meus olhos o que deles se diz,

Ou escutaste-lhes o murmúrio, minha flor do lis?

Talvez um pouco formais os versos, mas ficou catita o poema. O Sol tinha-se posto, era escuro de novo e a prostitua lírica voltou a atacar. Eu sei, eu sabia que não devia ter feito o que fiz, mas pensei que talvez, um dia mais tarde, o material me pudesse vir a ser útil e decidi, portanto, transcrever as mensagens trocadas em SMS com a Julieta.

Ela abriu as hostilidades:

“Estou encantada. Quando vi a carta de Singapura… Mas como descobriste onde eu morava? E porquê? Porquê eu? Porque te deste a todo este trabalho?”

Eu não vos dizia que o truque da carta era muito bom..? Ela perguntava-me “porquê?”. Porquê o poema, a carta, o gesto arrebatado… Por fortuna tinha já a resposta na ponta da língua, ou melhor, na ponta da caneta pois uma das manas das pequenas mamas havia-me feito a mesmíssima pergunta. Porém, para ter alguma credibilidade, respondi 4 horas mais tarde da seguinte forma:

Não tenho explicações científicas.

Teorias complexas são trapalhadas,

São postiças verdades engalanadas

A sofismas e lógicas miríficas

Que doutos mestres em sociologia,

Inchados pavões no seu orgulho,

Apresentam como jóias o entulho

Que soterra uma tão fraca fantasia.

Ai o rigor científico e racionalista,

A matemática e o pensamento geométrico,

Como tudo é terrivelmente tétrico!

Pois tal saber quero eu perder de vista!

Perguntaste-me as razões porque te quero…

E sei dizer-te apenas que é um querer sincero.

Que lindo, não? A resposta que recebi é que não foi nada bonita. Telefonaram-me e escutei de viva voz o bagaço a gritar:

“Daqui fala o Romeu:

E se não paras com isto,

Quem te vai aos cornos sou eu!

Vês, palhaço? Também eu sei rimar.

Uma voz - Julieta lá atrás, seria? – Clamava: “pára com isso Tiago, como te atreves...?”

Mas atreveu-se! A mensagem era clara, cristalina como água e telefonei de imediato à minha advogada porque nos assuntos do coração é sempre útil ter uma opinião especializada. A minha conselheira sentimental foi muito explícita e expeditamente explicou-me: “Pelo amor de Deus Faustino, abre os olhos, ela vive no Feijó!”

Tinha razão. Não só me arriscava a levar um enxerto de porrada do Romeu como aqui entre nós: o Feijó era demais! Era do outro lado do Tejo, para lá da portagem e pouco antes do Fogueteiro… Ainda se ela vivesse ali na Estrela era possível passar lá por “acaso” e terminar a tarde tomando um cafezinho na esplanada do jardim com o lago ao lado e os patos grasnando. Mas no Feijó!? Pelo amor de Deus! No Feijó os únicos patos que lá vivem são os idiotas que compraram as vivendas germinadas do outro lado da estrada que os separa da zona industrial do Feijó! E a zona industrial do Feijó… Meus amigos: a zona industrial do Feijó não é coisa bonita de se ver.

Foi por isso, por ficar fora de mão e cara em gasolina… que eu decidi parar por ali.

Tinha perdido! Perdera a parada e voltava à estaca zero. Pus-me, então, a reflectir sobre as razões dos meus fracassos. As sucessivas banhadas que levava não podiam ser apenas obra do acaso. E acreditem: esta tinha sido apenas mais uma. Tinha realmente de abrir os olhos e encarar a verdade de frente sem mais subterfúgios, teorias da conspiração ou desculpas esfarrapadas! E admiti, perante o espelho, finalmente a verdade: Eu era vítima duma macumba! Sim, tanto azar ao amor só podia ter como única explicação científica uma maldição lançada pelas duas manas de pequenas mamas. Na altura escarnecera nas suas caras: “ah, ah, ah, ah!” Mas naquele momento veio-me à cabeça o Spider Man! Fui a correr vê-lo… E lá estava a um canto o meu homem aranha, o meu alter-ego, completamente cravejado de alfinetes com o poema na mão.

A Maldição!

O ritual foi cumprido,

O feitiço foi feito.

Não há volta nem jeito

De escapar ao estabelecido.

Mágicos símbolos pintados

No solo sulcado… Um pentagrama.

Óh esquecidos Deuses invocados:

Enrabichai-me vós esta Dama.

“Estiveres tu onde estejas,

Por diferentes que sejam os céus,

Por mais olhos que vejas…

Neles verás sempre os meus.”

E assim, entre a loucura e a paixão:

Foi lançada, foi lançada, foi lançada a Maldição!

Elas tinham mesmo usado esse expediente sujo – lançarem-me um feitiço! Ainda por cima serviram-se dos meus próprios versos, dos versos que eu escrevera na noite da coca e do ritual pagão que celebráramos para finalmente poder trincar as pequenas mamas das duas manas… Na altura pareceu-me uma boa ideia, mas agora… agora percebia que havia um preço a pagar. E que preço! Com que juros! Para minha desventura aqueles deuses tinham-se saído uns grandes agiotas.

Seria que a praga rogada pelas manas dos melodramas na altura do nosso divórcio não tinha volta a dar… Elas bem me tinham jurado: “não hás-de ter sorte nenhuma! Só vais dar com os burros na água e voltarás tenrinho, tenrinho, como uma banana para o regaço das tuas manas…”

Seria.. Oh Deus! Eu nem queria acreditar mas… O Spider Man! O Homem Aranha até metia impressão com tanta agulha no estofo… Senti-me tão desesperado e deprimido que só me apeteceu escutar um fado e pus na aparelhagem os Ena Pá 2000

Foi depois disso que, num momento raro de inspiração, me lembrei da Menina Azul. Tinha fracassado – uma vez mais – no meu objectivo de arranjar uma amante, mas as manas não precisavam de saber disso… E eu pressenti qual seria a minha salvação! Ia dar uma de “Álvaro Cunhal”: transformar derrotas em vitórias. E fiz logo um plano porque eu adorava esquemas.

Se não tinha amante, inventava uma. Era chic e bem engenhoso ter uma amante imaginária. Não gastava dinheiro – e as amantes custam bem caro. Não tinha dores de cabeça, pois esta só existia na minha e não me fazia chantagens emocionais. Não vivia, enfim, sobressaltos desnecessários porque com uma amante imaginária nós fazemos o que queremos da relação. Era perfeito, muito melhor do que uma boneca insuflável.

Mas tornava-se necessário dar consistência a esta história da amante imaginária e resolvi juntar o útil ao agradável, pedindo a irmã de um amigo meu emprestada. Telefonei ao Tó e expus-lhe a situação. Como é evidente, ele disse logo que sim, mas quem não diria?

O Tó tinha uma linda irmã de olhos azuis nos seus debutantes quinze anos. Encontrava-se na altura de desabrochar, ir às discotecas, sair à noite e pintar a manta pela cidade. Ora filha de boas famílias e com uma sólida educação cristã, a menina não podia sair ao Deus dará. Cruz, credo! Claro que não! A sua inocência era devidamente salvaguardada pelo Tó que, com o sacrifício da sua vida social, acompanhava a irmã.

Dava dó o Tó, mas quando me propus substitui-lo na ingrata tarefa de Baby-sister da mana caçula, a “joi de vivre” reconquistou o coraçãozito do Tó… é sempre bom fazer jeitos aos amigos e, desta forma, já podia o Tó como um bom, barbudo e barrigudo trintão, retomar à mesa de Póquer e aos whiskis com os seus compinchas que, como ele, esperavam ter na mesa de jogo a sorte que lhes escapava no tabuleiro do amor. Hum… Vendo bem as coisas, se calhar deveria ter-me juntado ao grupo, mas lírico como era, resolvi continuar a apostar as minhas fichas na roleta das cegas paixões.

Durante dois meses, portanto, dei umas voltinhas com a garota e foram tantas as voltas que escrevi alguns poemas para a irmã do Tó.

A menina azul

A menina azul desceu, desceu,

Dos céus desceu num raio de luz

Desse luar que a todos seduz.

Vinha da lua, lá donde nasceu,

Vestia kimono da cor do azul,

Vinham nos olhos os céus de Istambul.

Até os seus lábios eram diamantinos,

Lembravam os rios de tão cristalinos.

Nos cabelos trazia… o mar, maresia,

A menina azul, azul fantasia…

Num manto de espuma em paul alagado

A menina azul… Poisou delicado!

E calada a charneca com o coaxado…

Consagraram-se os sapos ao anjo azulado.

Tendo escrito os versos, resolvi ir mais longe e realizar uma instalação poética com os poemas azuis. O início da época balnear seria dali a 15 dias e eu ia abrir a estação em grande, pondo cartazes de 3 metros com os poemas d’ A Menina Azul nos acessos das praias do concelho de Cascais… Porquê Cascais? Porque era mais bonito que o Feijó, mais à mão de semear e as tias de Cascais sempre tinham algum dinheiro para financiar estas estroinices que eu impinjo como arte.

Assim fiz e, seguindo a rotina, afirmei à posteriori à imprensa que me apaixonara pela Menina Azul, surfista das praias da linha do Estoril, conseguindo dessa forma a minha primeiríssima primeira página no 24 Horas. Sim, meus amigos, cumpri um sonho de infância: era capa num tablóide!

Sobretudo, tinha vencido a macumba das manas. Não mais seria escravo dos seus caprichos e melodramas! O que começara por ser um estratagema para fazer arder em ciúme as duas manas de pequenas mamas, acabava por se revelar como caminho novo… Era capaz de escrever, mais do que isso, de usar a caneta com outras musas. De resto, se o Picasso tivera o seu período azul, também eu tinha direito ao meu!

Mas o que era bom não podia durar sempre. Talvez por ter 15 anos, decerto por ser mulher (ou a caminho disso…) A Menina Azul fez birra! Bateu o pé e fez-me cenas por ter dedicado aquela instalação poética a uma surfista qualquer ao invés de assumir o nosso amor proscrito!

E eu, sinceramente, já não tinha pachorra para adolescentes, as modas urbanas e os dramas da borbulha. Não! Ainda lhe tentei explicar que, tendo ela 15 anos e eu 30, podia ir para a cadeia a propósito dos poemas… e do uso da caneta! Mas não me esforcei muito e de resto ela até tinha razão: a história da “surfista azul” era comercialmente mais rentável e eu não passava de uma prostituta lírica.

Por isso, tornei ao celibato antes de dar entrada no xelindró. Tentara passar uma rasteira na maldição das manas, mas continuava estendido ao comprido…

Lembrei-me delas, os suspiros, para além das saudades fizeram a sua aparição… Meu Deus! Saudades das manas!!! Seria a “maldição” delas a funcionar? Estaria simplesmente carente? Ainda hoje não sei. O que sabia é que os melodramas das manas sempre tinham uma grande maturidade dramática… E isso, meus amigos, não se encontra em qualquer loja dos chineses.

A minha cabeça andou à roda: matutei, matutei nas duas manas até que acabei por concluir que estava mesmo preso às manas… O que também não era assim tão mau, desde que fosse eu a guardar a chave das algemas…

Sabendo através dos preciosos ofícios da minha advogada que as duas manas de pequenas mamas ardiam de despeito pelo meu Verão Azul, resolvi encontrar-me casualmente com elas. Como é evidente, para forçar a casualidade, fiz-lhes uma espera: “Oh que grande surpresa! Acabei agora mesmo de chegar.” Eu sorria de orelha a orelha, mas as duas manas mostravam-se muito pouco fraternais. A recepção gelada, todavia, não esfriou o meu entusiasmo, pois eu tinha uma arma secreta. Ao fim de alguma conversa de circunstância, tirei da manga a Branca de Neve do João César Monteiro e fiz o convite. À noite, a branca alinhada em riscos, faria o resto por mim.

E assim foi meus amigos! Afinal tenrinhas, tenrinhas, tinham voltado as duas maninhas de braços abertos e mamas ao léu. Ia tudo pelo melhor e não tinha mãos a medir pelo bem ocupadas que estavam quando, para minha solene irritação, tocaram à campainha. De início tentei ignorar, mas a campainha não se calava: “Triim, triim, triiiiiiiiim”. Era demais para os meus índices de concentração!

Resolvi atender a porta e fui em pêlo. Em pêlo, sim, tal como Deus me mandou ao mundo, pois nada ilustraria melhor ao Sr. Manuel a hora muito incómoda em que viera cobrar o condomínio do que apanhar com um nu frontal. Abri a porta e lá estava um bigode, mas este bigode veio acompanhado duma pêra e atrás da pêra vieram socos, biqueiros e muito açoite.

Eu nem sabia quem era aquele gorila, mas a sova não dava muito espaço para apresentações formais. De qualquer modo tratei de invocar a minha inocência: “Eu não fiz nada, pelo amor de Deus, eu não fiz nada! Apenas pedi ao Tó para sair com a irmã para causar ciúmes a estas manas. Pelo amor de Deus, acredite em mim, quando lhe digo que não toquei num fio de cabelo da sua filha!”

E para minha surpresa escutei “filha, mas qual filha, eu não tenho filha nenhuma, do que é que estás a falar oh paneleiro?” Alguns pontapés nas costelas e as devidas explicações depois, lá apurámos a verdade… “Que falta de sorte a minha – grunhiu o troglodita – entrei no prédio ao lado e estive a dar um sova no gajo errado. Então este é o nº 68 e não o 68 A. Mas que grande galo”. Pois, pois, “mas que grande galo”. Então que diria eu cheio de mazelas, nódoas negras e escoriações várias…

Mal o tipo saiu porta fora, reinou lá em casa o mais pesado silêncio, pois o pior estava para vir… As manas que tinham a tudo assistido, durante muito tempo ficaram quietas, mudas e inexpressivas. Eu tremia só de pensar… Até que uma declarou:

“Poeta, esta foi provavelmente a cena mais patética a que assistimos na vida. Mas sabes que mais..? Gostámos. Gostámos muito do filme”. E rindo muito marotas, partiram pedindo: “vê lá se amanhãs arranjas o Silvestre para continuarmos a sessão”.

Eu encolhi os ombros e resignei-me, pois assim, como assim, com as duas manas de pequenas mamas e grandes psicodramas sempre desenvolvia a minha obra lírica com alguma cama. E finalmente, apreendera o significado oculto do que me dissera em tempos uma das manas: “quiseste trocar de soutien… mas saiu-te a mesma medida!"


Rui Faustino

o Pedro que procura Inês


quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

A mulher Sagitário e o amor

Jane Fonda, actriz e nativa de Sagitário.
Causou polémica, nos Estados Unidos, pelo seu apoio ao Vietname.
Também conhecida por "Hánoi Jane"



A mulher sagitariana é enfrenta os desafios da sua vida de modo entusiástico, amor incluído. Infelizmente, o seu optimismo não conhece (por vezes) limites e estará, consequentemente, sujeita a apanhar a sua dose de desilusões amorosas. Ainda assim, com espírito de jogadora, não levará o amor ou o sexo demasiado a sério e, se a magoarem, não lhe custará passar rapidamente duma ligação a outra. Convém não esquecer que o centauro é o símbolo deste signo e que, à imagem, do seu arquétipo, a mulher sagitariana é uma caçadora!
A mulher Sagitário é ferozmente ávida da sua liberdade e a perspectiva do casamento ou maternidade costumam colocar-lhe problemas existenciais graves... Tarefas domésticas? Bah! Viagem à Índia!

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009


terça-feira, 8 de Dezembro de 2009


segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009


domingo, 6 de Dezembro de 2009

"Eu fui uma prostituta lírica"
é o óbvio relato da minha desgraça pelo deboche


sábado, 5 de Dezembro de 2009

Perdoa-me, Inês, por todos os desvarios


sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009


quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009


quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Uma explicação necessária

"Eu fui uma prostituta lírica" é a estória fantasiada dos passos perdidos e das plásticas paixões pelas quais, pueril e cego, perdi o amor de Inês...


terça-feira, 1 de Dezembro de 2009


segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Eu fui uma prostituta lírica é um conto alegórico do período turvo em que, perdido o amor de Inês, deambulava de quimera em quimera. Trâze-lo à luz do dia, dando testemunho autocrítico do meu deboche, será, talvez, um modo de me redimir aos seus olhos ou, pelo menos, de esconjurar alguns esqueletos do armário...

11 são já os meses


A Inês que procuro, conheci-a há 10 anos. Com ela tive, por ela tenho, uma história de amor. Um amor grande, tão incodicional, que foi capaz de durar 10 anos, capaz de resistir a tudo.

Procuro-a porque não sei dela. Perdi-lhe o rasto: telefone, morada, local de trabalho, hábitos, tudo mudou nestes 3 anos em que nos separámos! O que por ela sentia esteve adormecido e latente ficou até ao dia em que nos cruzámos de raspão, quando no início de 2009 ficámos olhos nos olhos e os nossos corações falaram.

Inês é bonita e os seus olhos são como prados. Tem um cabelo de madeixas de mel e os seus lábios são carnudos como morangos. Não é alta nem baixa, é elegante e de curvas esguias. Dizem viver em Lisboa, mas foi vista, pela última vez, em Santa Apolónia.