4/22/2010
Marionetas do Horóscopo 24
Os dados estatísticos daquele trimestre confirmavam os piores receios económicos: houve uma crise energética com o brutal aumento dos preços do petróleo. Já não tinha carro, mas também não aforrara tanto quanto convinha e as possibilidades previstas de sobrevivência turvaram-se mais quando os meus pais fecharam a torneira da sopinha: amargava-lhes a preguiça e a excentricidade minhas. Também eles se divorciaram de mim - "não me chames mais de mãe"! E acabaram as entregas de fruta. Iria passar fome?
Nunca os censurei, todavia, pois escapava-lhes o essencial: as medidas do governo para combater o desemprego eram uma gargalhada e eu era um dos menos aptos para sobreviver na selva contemporânea. Tinham-me amansado os instintos: possuía uma licenciatura e duas pós-graduações, mas de mãos era um inútil. E não sabia fazer nada. A escola não me ensinara nada de prático ou verdadeiramente útil. E eu também não quisera aprender assim tanto. Mais valia, por conseguinte, deixar andar ou então…
4/10/2010
Marionetas do Horóscopo 23

[1] Hades, O Universo da Astrologia, Lisboa: edições 70, 1997, 150
4/09/2010
Marionetas do Horóscopo 22
Mas para quê dramatizar? Desde que me conhecia que sempre tivera uma imagem pouco abonatória sobre mim. Sabia agora ser resultado de pertencer ao signo Virgem. Se falhava como ser humano, já não era por meus erros, maus genes ou certas experiências madrastas da vida.
Com efeito, nem sequer possuía motivos válidos para me encontrar mais deprimido do que o habitual, uma vez que a astrologia absolvia-me pelas minhas derrotas e desventuras. Pelo contrário, passei a experimentar até um alívio de consciência, mais: uma tremenda libertação! A culpa não era minha, quanto muito das estrelas! Tivessem-me parido noutra altura e eu já não seria um caso perdido. Na hora precisa, au point, até podia ter saído um contabilista bem sucedido da cartola.
E aqui estava o espinho: “se tivesse nascido a horas decentes”. E porque não o fizera? A doutrina astrológica atribuía à vontade o acto de nascer. Estando os bebés nas barrigas das mães, nascem quando têm de o fazer, quando sentem que é chegada a sua hora, sucedendo, por isso, muitas vezes, que o rebentamento de águas e as respectivas contracções e dores de parto se iniciem nos locais mais estrábicos como restaurantes, transportes públicos ou mesmo elevadores de arranha-céus.
No meu caso, não tive direito de opção. Escolheram por mim, elegendo o ocaso daquele dia de Setembro para meu nascimento, os médicos que operaram a cesariana no Hospital Particular de Lisboa. Sonegaram-me a vontade inicial. Quem poderia calcular a dor traumatizante, o dano psicológico, experimentados por mim, ao ter sido lançado às feras sem me sentir preparado? De algum modo, significou isso que fui um rebento da cupidez médica, pois nasci não quando a minha vontade o estipulou, mas consoante as conveniências do agendamento de operações mais lucrativas em curso. Foi no dia 2 porque não teria havido nenhum transplante de fígado ou hérnia discal, para me fazer sombra. Podia ter sido no dia 3. Ou no dia 4. E foi às 20 horas porque sim. Alguém se deu ao trabalho de me perguntar qual seria a minha conveniência?
Nunca pude provar esta minha teoria, mas ninguém ma tirou jamais da cabeça: era uma vítima de certas estratégias de rentabilização hospitalar! Tivesse eu nascido a horas e dias decentes e seria uma pessoa totalmente diferente. Calhando, seria até uma pessoa normal. Mas não, fizeram de mim uma Virgem com Ascendente em Peixes! Ou “O Pateta”, como honestamente me explicaram mais tarde.
Se houvera nascido umas horas antes, de madrugada por exemplo, teria Ascendente Leão e o horóscopo anunciar-me-ia, entre o rufar de tambores, do seguinte modo: “está predestinado a enriquecer, sem dúvida devido a uma profissão liberal. Tem sentido de humor mas é bastante susceptível. São notáveis os seus dons para comunicar aos outros a sua sabedoria”[4]
Teria sido muito melhor, não..? Sinceramente, lia e relia, pensando seriamente processar aqueles médicos encartados… Mas como? Não estava nos Estados Unidos onde, por vezes, os juízes atribuem indemnizações astronómicas pelos motivos mais descabelados. Não. Era inútil sonhar com processos judiciais, pois nem mesmo um idealista como eu podia acalentar ilusões a esse respeito. Os tribunais, simplesmente, não estavam preparados para atender acusações baseadas em considerações astrológicas: “Indeferido" - sentenciaram-me os botões!
4/07/2010
Marionetas do Horóscopo 21

A “dominante” do meu mapa era o binómio Virgem – Peixe. Em Virgem tinha os planetas Sol, Mercúrio e Marte; em Peixes estavam lá o Ascendente, a Lua e Júpiter. Para mais, Neptuno, Regente[1] do signo de Peixes, fazia alinhamentos com o Sol e com o próprio Ascendente. Tudo somado e metade de mim era uma barbatana. Daí uma certa tendência para a desarrumação organizada, a controlada alienação pelo álcool ou o estudo sistemático do esoterismo.
Para minha cruz, a maior parte dos planetas tinha alinhamentos tensos – e eu era, de facto, tudo menos uma pessoa calma. A teoria dos alinhamentos colocava em primeiro plano a combinação de energias através das funções representadas pelos planetas, sendo que - no meu caso - as várias dimensões da minha personalidade não jogavam propriamente em equipa.
Os 360 graus do círculo zodiacal podiam ser divididos em partes iguais de 1 a 12. Segundo as antigas teorias matemáticas e cosmogónicas de Pitágoras, primeiro, e Ptolomeu, depois, da divisão do círculo por 1 (dois planetas no mesmo grau[2]) resultava a “conjunção”, por 2 (num frente a frente planetário separados por 180º) a “oposição”, por 3 o “trígono”, por 4 a “quadratura” e por aí fora. A tradição astrológica destacaria, ao longo do tempo, alguns aspectos considerados como os mais potentes, com maior destaque na manifestação do indivíduo pela vida: conjunção, sextil, trígono, oposição e quadratura. As últimas duas combinações planetárias (oposição e quadratura) são particularmente negativas, representando confrontação e crise - e estes aspectos dominavam amplamente o meu Mapa Astral.
O meu Sol opunha-se a Júpiter, no que resultava um traço de megalomania não desprezável. Seria possível? Mas então não era uma modesta Virgem com problemas de auto-confiança? Analisando o alinhamento em causa, reconheci sofrer – consoante os dias -de alterações extremas de humor e de auto-avaliação. Tanto caracterizava a minha vida de miserável, como, logo depois, a considerava suficientemente válida para inspirar umas “memórias astrológicas”. E se isso de escrever “memórias não era um traço de megalomania, o que mais poderia ser? Talvez a doença bipolar…
Variações do meu estado de alma eram, de resto, muito frequentes pela Lua na 1ª Casa absorvendo as vibrações emocionais em meu redor como uma esponja. Por falar em álcool… Onde teria guardado aquela velha garrafa de Porto..? Não dei com a garrafa e para toldar o meu estado de ansiedade, a minha Lua igualmente se opunha a Mercúrio e Marte no momento do meu nascimento, o que abria um abismo entre a esfera da razão e a metade emotiva, acentuando, pois, uma permanente instabilidade nervosa como resultado de precoces e intermitentes conflitos com uma mãe possessiva e castradora…
Obrigado mamã! Terminando em beleza, as quadraturas de Neptuno, tornavam-me num idealista com propensão a ver a vida por “óculos cor-de-rosa”, cego pelos sonhos da Casa 9 (as crenças) onde este se encontrava e pelo qual me dissolvia, para não enfrentar a dolorosa verdade de frente, sem falsas desculpas ou fugas tacanhas: metia dó como projecto de ser humano.
Talvez o espírito crítico da Virgem estivesse a ser demasiado exigente… Mas não! Era mesmo difícil encontrar algo benigno, com serventia e bem disposto no meu Mapa Astral… Tendo o Sol na Casa 7 (o domínio do casamento), descobrir a cara-metade, tornava-se na condição sine qua none para a minha realização… Pois por azar, porém, Saturno - representando as dificuldades e provações - estava num particularmente mau estado celeste às 20 horas do dia 2 de Setembro de 1974, o que iria restringir-me seriamente o sucesso no amor e no jogo por toda a minha vida. Que pouca sorte, não era?
Por algum motivo, já a Lua em Quadratura com o Meio-do-Céu pressagiava “uma carência e uma insatisfação para a qual não houve resposta no seu seio familiar”[3]. Outros dados acentuavam uma personalidade imatura e infantil, emocionalmente dependente e melindrosa… Mas que grande estucha que era! A leitura do horóscopo assemelhava-se aos sermões duma certa ex-namorada…
[1] Todos os Signos têm como “regente” determinado Planeta – são governados por eles, isto é, pelos planetas que melhor canalizam as energias em questão.
[2] A tradição astrológica confere uma certa margem de erro – chamada de orbe – aos aspectos, uma vez que é bastante raro dois planetas encontrarem-se exactamente no mesmo grau ou separados, por exemplo, por precisos 180º. A “orbe” não deve ultrapassar uma distância de 5º. Exemplo: Marte oposto ao Sol por 188º. Aspectos envolvendo Sol e Lua e destes com os restantes planetas podem ir até 10º. Quanto mais preciso for o aspecto, mais potente se torna a combinação de energias.
[3] Resina, Luís, Guia de Interpretação Astrológica, Lisboa: Editora Pergaminho, 2000, pág. 116
4/06/2010
Marionetas do Horóscopo 20

Sujo, com louça por lavar e discos pelo chão, cocei a barba de muitos dias pensando que eles poderiam até - e afinal - ter alguma razão. Para que acalmasse os nervos, o horóscopo prescrevia-me às colheradas, convenientes conselhos sobre os poderes curativos de “contactar com o mar”, da “felicidade do celibato” – realmente ter sido corneado e abandonado pela minha mulher fora um dádiva dos céus… - e da necessidade de ter “consciência dos problemas religiosos”. A receita sabia a ranço e só podia ser entendida como um convite implícito para prosseguir explicitamente no trilho do esoterismo astrológico, ajudando o Sr. Hadès e os seus amigos a enriquecerem. Que grande banhada!
Mas para que não houvesse senão sem bela, douravam-me a pílula, afirmando o horóscopo, sobre a estrada do Ascendente Peixes, que possuía uma “sensibilidade muito forte”, tornando-me numa espécie de “Virgem emocional”… Mas qual era a aplicação prática, o ganho concreto, palpável e aproveitável de ter sentimentos? Que benefício adquiria? No fundo, no fundo, só ganhava um aparente contra-senso entre termos: Virgem e sentimentos… e na verdade, era-o mesmo! Assim mo afiançou, mais tarde, certa astróloga italiana que, na primeira vista de olhos ao meu Mapa Astral asseverou que tinha “tudo no sítio” para se despedir de mim, num último relance, com o veredicto final de ser “um poço de contradições”.
Segundas opiniões apenas confirmariam o diagnóstico, carregando-o - se tal fosse possível e assim se revelou – com as mais sombrias cores. Eu, porém, estava dando os primeiros passos em direcção ao auto-conhecimento e, na minha verde inocência, guardava a expectativa de descobrir em mim uma mão-cheia de virtudes, recuperando o amor-próprio e um senso de auto-estima. Prossegui, portanto!
4/05/2010
Marionetas do Horóscopo 19

Tornei ao Ascendente. Fiz este tipo de reexames inúmeras vezes num ciclo contínuo de leituras cruzadas, recuperação de passagens e troca de dados. Os resultados mantiveram-se.
E uma vez mais recapitulei:
“Virgem com Ascendente Peixes”. Folheava os vários livros que levara como a indemnização possível da biblioteca, lendo sistematicamente que “é nervoso e crê que tem pouca vitalidade. Traz-lhe muitos benefícios contactar com o mar, estar só e ter consciência dos problemas religiosos, sobretudo se não se subestimar, pois é uma pessoa intuitiva e empreendedora.”[1]
Convenhamos que não era propriamente reconfortante! Mas, simultaneamente, não havia nada de mais dramaticamente verdadeiro, incluindo aquela parte da “consciência religiosa” ou não estaria ali eu, empedernido sportinguista, estudando astrologia..?
Primeiro, porque era realmente um tipo “nervoso”, tendo sido um adolescente epiléptico. Tomara - durante anos - três comprimidos cor-de-laranja ao pequeno-almoço, almoço e jantar, para evitar ataques de fúria e tiques incontroláveis que iam desde o revirar os olhos, a entrecruzar os dedos das mãos ou simplesmente torcer o nariz.
Depois, era claro que sempre me considerara com pouca vitalidade, mas também não era para menos: era epiléptico, pelo amor de Deus! E desde apanhar porrada de miúdas na escola primária – seria possível considerar algo mais humilhante? –, até nem sequer levar “tampas” no liceu, pela aguda timidez que sempre me fez perder o amor do momento para o primeiro idiota de ocasião; fora o arquétipo do jovem urbano-depressivo que vestia de preto, enrolava a língua e lia Baudelaire ao som dos Joy Division. Ou sem adornos literários: uma quase aberração da natureza. A minha própria família nunca depositou grande fé nas minhas capacidades, tendo-me sido pressagiado num determinado Natal que jamais conseguiria entrar na Faculdade. E quando entrei, logo disseram “História” como quem ajuizava: “pobrezinho, não dá para mais”…
[1] Hadès, O universo da Astrologia, Lisboa: edições 70, 1997, pág. 171
4/04/2010
Marionetas do Horóscopo 18

Era esse o motivo de não existirem duas Virgens iguais, uma vez que certos planetas poderiam acentuar, outros desvanecer e alguns até contradizer, negando mesmo, as características básicas do Sol em Virgem em vários domínios da vida.
Toda essa energia representada era, por sua vez, desenvolvida numa certa direcção, apontando a via que escolhíamos para enfrentar a vida. Era aqui que entrava o signo Ascendente: aquele que ascendia a Oriente, no ponto do horizonte onde nasce o Sol. Seria como – imaginando – se o signo solar fosse o carro e o Ascendente a estrada a ser percorrida pelo bólide… Ou no meu caso, pelo “carocha”, porque isto de Virgens… já sabia o que é que a casa gastava!
Sendo o Zodíaco uma espécie de anel, de faixa circular celeste dividido em doze secções, isto é, em doze signos envolvendo a Terra, consoante a hora e a localização geográfica do nascimento… veríamos este ou aquele pedaço de céu erguendo-se a Levante e teríamos este ou aquele signo Ascendente e a consequente disposição planetária nos céus e nos Mapas Astrais. Se tivesse nascido na aurora do dia, por exemplo, o signo ascendendo a Oriente seria igualmente Virgem, onde o Sol se encontrava no meu desventurado Setembro.
Daria uma trabalheira decifrar todas as incógnitas da minha equação astrológica? Sem dúvida que deu mesmo: várias noites em claro, com os olhos postos nas estrelas e marrando sem cessar na minha Carta dos Céus! Levei algum tempo a compreende-la e custou-me a aceitá-la, verificando-a de todos os ângulos e de várias perspectivas até encontrar a sua “dominante”, isto é: o fecho da abóbada, o resultado final de todo o cálculo astrológico. Percorrido completamente o círculo cheguei ao ponto de partida. Não era de estranhar, pois objectivamente a minha vida era um beco sem saída.
4/03/2010
Marionetas do Horóscopo 17

Por fortuna, o meu pai também nascera em Setembro e tinha tudo muito bem guardado. Conservava não apenas as contas da água, luz e gás, impostos, facturas, garantias e outros recibos dos últimos 30 anos em pastas primorosamente catalogadas, como arquivara também algures o meu boletim de nascimento. Foi à procurara dele e encontrou-o, o que era de facto extraordinário! Comprovadamente, já não se faziam Virgens como antigamente. E... Fiat Lux: 20 Horas - assinalava pontualmente o registo.
E com os dados na mão, puderam logo os olhos ler a Carta dos Céus! Mas se a minha alma convidava-me a conhecê-la, incorri à partida nuns problemas de tradução... É que os meus olhos liam o Caos! Na melhor das hipóteses, uma grande confusão. Tal como astronomicamente o Sol era o centro do nosso sistema planetário, também na astrologia, este representava o âmago do indivíduo, o centro de si, o Self consciente, o Eu criativo: era uma Virgem porque ao nascer em Setembro, o Sol era observável no espaço do Céu correspondente ao signo da espiga – e lá estava o símbolo no Mapa. Porém, tal como nos céus, igualmente os grandes corpos celestes do sistema solar estavam aí representados, correspondendo cada um dos planetas a uma faceta, parcela ou dimensão da personalidade.
À Lua equivalia o sentimento, o modo de sentir, Mercúrio traduzia a capacidade de comunicação e o tipo de pensamento, Vénus velava pelo amor, Marte pautava a forma de agir, Júpiter – pai dos deuses -simbolizava as aspirações, Saturno limitava, colocando barreiras e desafios pela vida. Ao Longe, Urano simbolizando a originalidade, Neptuno iluminando o sonho e Plutão regendo o desejo, influenciam de modo mais subtil, mas não menos profundo.
Parecia pouco? Era todo um Universo de metáforas e, para complicar a sua decifração, os meus planetas caiam em vários signos e “casas”. Se os signos representavam o tipo de energia e os planetas os canais de fluxo, as “casas” simbolizavam as dimensões práticas da vida em que essas energias se expressariam. Eram 12 signos, 10 planetas, 12 casas e um grande quebra-cabeças aquela divisão do círculo.
4/02/2010
Marionetas do Horóscopo 16

Expiação pela frente, sem dúvida. Fui à procura dessa informação vital e bati à porta bastante constrangido. Jogando pelo seguro, levei comigo as passagens daquela viagem ao México que não mais faria com a Andreia. Era o cabrito que tinha para o sacrifício reverencial, pois mesmo não vestindo uma camisa impecavelmente engomada, tinha um trunfo na manga: não sendo pródigo, nem filho muito varão, era porém o rebento único.
Cruzei a soleira do apartamento dos papás com as passagens na mão e o credo na boca. Balbuciei uma tímida saudação. Doía: Não trocávamos palavra havia dois anos.
“Voltaste. Eu sabia que não ias dar certo!” - Regressava como as ovelhas negras, que se tresmalham e são por fim vencidas: olhos postos no chão, língua mordida às muitas provocações e mãos cerradas, crispadas, para não estrangular ninguém. Aguentei-me. Respirei fundo. Mais fundo ainda e acalmei. Adorava a minha mãe, mas só me apetecia matá-la. Representei, tanto quanto possível. Confessei, disse que sim a quase tudo, capitulando ao comprido e em desgraça. Suportei o melodrama da reconciliação e comi a sopinha toda até ao fim.
Não viera atrás duma refeição decente, mas também ajudava. A humilhação e o arrependimento, todavia, tinham propósitos mais elevados, mais amplos e largos do que um prato de lentilhas. Esperei o momento. Por alturas do café, enquanto passava o açúcar, coloquei à minha mãe a pergunta sacramental: “mamã, lembras-te a que horas nasci?
Ela suspirou, queixando-se abundantemente dos muitos martírios e poucas alegrias que eu lhe proporcionara. Foi uma longa resposta. Aproveitou a deixa e desenrolou um denso novelo de recordações, ficando eu a par de toda a epopeia do meu dia D, mas na mesmíssima ignorância sobre a hora precisa de nascimento… Pois entre o que o que ela jurava a pés juntos e o que afirmava lembrar-se o meu pai, havia uma discrepância de hora e meia. Que fazer?
3/31/2010
Marionetas do Horóscopo 15
Por essa altura, os meus estudos tinham avançado o suficiente para justificar a aquisição dum programa de software que calculasse e cartografasse os astros num dado momento, desenhando Mapas Astrais: maravilhas da tecnologia: já não precisava de compreender os mecanismos dos movimentos celestes! Avancei na compra, mesmo subtraindo duas semanas à minha sobrevivência planeada, mas valeria a pena. Uma vez instalado o programa para poder ver a minha cósmica impressão digital no momento do meu nascimento, era-me solicitada a hora do mesmo - a hora precisa - e apurada ao minuto se possível! Ora eu nascera em Lisboa a 2 de Setembro de 1974 pelo fim da tarde… pelo fim da tarde, mas quando? Quando exactamente? Que tempo marcavam os ponteiros do relógio?
Exaltava ao soletrar as linhas que os astros escreviam nos Céus, mas tinha um problema por solucionar: saber a que horas nascera. Fumei outra ganza! O momento exacto do nascimento concederia a chave, a clave do tom primordial da música celeste que tocaria ao longo da minha vida. E a ansiedade dominou-me: teria ainda salvação?
3/29/2010
Marionetas do Horóscopo 14

Se já não era capaz de encarar de frente, olhos nos olhos, o mundo na condição de divorciado; na pele de desempregado, então, tomei sumiço! Não foi, sequer, difícil: eu já estava meio morto. Ou pelo menos, a vida pacata e organizada como a conhecera, bruscamente se desvaneceu num dia de chuva. Queimadas as asas, encerrei-me no casulo. Durante meses amortalhei-me vivo em casa, fumei ganzas e li sobre astrologia.
Muitos apontariam o dedo, clamando inchados no mortiço esplendor dos seus pequeninos sucessos: “coitado, é fraquinho da cabeça!” Julgassem, porém, o que entendessem da minha retirada em debandada! No isolamento e vivência ascética tornei-me verdadeiramente livre – como nunca o fora. Não prestava contas a ninguém, senão ao delaer e à mercearia indiana onde comprava os enlatados que magramente me mantinham. De vez em quando ia ao centro de emprego, mas era mera formalidade: toda a extensa formação escolar que recebera, servia para labor algum. Era um licenciado em História e o melhor seria procurar trabalho num call center.
Preferi viver na indigência a ter de atender telefones para sobreviver. Vendi o carro e a televisão. Reduzindo as despesas, esticando, esticando, abusando de chá e torradas, seria capaz de aguentar – somando as economias e o subsídio de desemprego - dois anos, três meses e dezassete dias barricado na minha auto-estima ferida: contas feitas e revistas desde que não houvesse um choque petrolífero ou me viciasse no bingo do Belenenses. Porque para a ganza dava!
3/28/2010
Marionetas do Horóscopo 13
Dizem que uma desgraça nunca vem só e dizem-no bem. Seria decerto mais comum despedir-se a mulher depois de perder o emprego, mas sucedeu comigo o inverso. Não nego que me desleixara, mas não mais do que o habitual! Verdadeiramente negligente foi o percurso do país, sempre de crise em crise, aos tombos como um bêbado, volvendo-se os tempos duros e tornando-me numa das várias vítimas do rigoroso Outono económico. Quando me deram a notícia, o meu coração gelou e julguei-me no fim: a ruína esteve a um palmo.
O meu trabalho era a minha vida, o que não deixava de ser bastante eloquente sobre a mesma. Como tantos, não elegera a profissão, antes fora escolhido por esta. Não possuía vocação, tampouco tinha grande serventia para a marcha da civilização do mundo e apenas alcançara um discreto estatuto na pirâmide social, não sendo invejado por quase ninguém. Não posso dizer que odiasse o meu emprego, simplesmente não via sentido nele. Era Guarda-livros e sê-lo na era digital seria, decerto, bastante idiota, mas aquele emprego pagava as contas no fim do mês e por isso mesmo, por ser coisa nenhuma com horários definidos e uma remuneração mensal, era toda a minha vida. Mesmo isso acabou esfumado num ápice, num mesquinho estalar de dedos e num “ponha-se a andar daqui para fora”.
Estrebuchei. Danifiquei discretamente os automóveis dos meus superiores hierárquicos, injuriei lascivamente as leitoras e embebedei-me como um porco. Vomitei para cima do chefe e não me foi fácil: tive de meter os dedos pela guela adentro para desembuchar o que realmente pensava sobre ele. Fodeu-se! Que podia fazer? Despedir-me? Eu ia já a caminho da porta com a vingança possível debaixo do braço: todos os livros de astrologia, esoterismo e mistérios sagrados, que conseguira roubar com a cumplicidade do segurança.
3/27/2010
Marionetas do Horóscopo 12
Fui nesta teimosia até casa, já se fé de ser tudo uma ilusão e acordasse ainda meio grogue dum sonho ébrio qualquer. Por via das dúvidas... Belisquei-me. O meu cérebro processava e testava a informação apreendida com contra-provas e tubos de análise. Tomara nota! As Virgens são mais desconfiadas que as putas. Analisam, descriminam e depuram na tentativa de estabelecer meticulosamente a verdade das coisas. Até irritava, caramba! Mas fôssemos honestos: como podia crer que planetas girando a milhões de quilómetros de distância da Terra, pudessem influenciar o nosso temperamento, decisões e encruzilhadas de vida? Estereótipos à parte, julgava ser uma questão de senso comum aceitar o pensamento científico moderno. Agora levava com a Vénus em cima dum par de Gémeos e nem sabia a quantas andava. Travei a fundo e foi no limite da passadeira.
Infatigável, a minha mente carburava, a todo o vapor, sem destino e sem parar, como um comboio desgovernado. Tal como o horóscopo me afiançava, era daquele género de fulano frustrado que mói e mastiga os problemas, uma vez e outra, sem parar jamais, sem parar nunca, sem fim definido. Já não estava com comichão, mas em plena urticária! Para piorar a situação faltava-me a pomada o que - no meio da rabugice geral - até me fez sorrir porque as Virgens – e revia em mim certos traços – tendem a ser umas loucas hipocondríacas mas, ao contrário porém, da prescrição astral, não tinha sequer uma aspirina para a dor de cabeça que me assaltava os cornos postos, quanto mais uma farmácia ambulante dentro de casa! “Boa noite” – sussurrei aos meus botões e fui-me deitarempate técnico entre mim e a Astrologia.
3/14/2010
Marionetas do Horóscopo 11

Fazia-se tarde e não me pagavam horas extraordinárias. Terminava outro extenuante dia de trabalho quando me lembrei de quando tentara satisfizer determinada fantasia sexual da Inês no depósito de livros. A vida era simples, mas eu compliquei tudo: acagei-me com a ideia de ser apanhado de calças na mão… Era um atadinho como qualquer Virgem, preso à auto-vitimização, ao criticismo, ao pessimismo… que depressão! Não haveria nada de simpático no meu Signo? Manifestamente, a Virgem era o patinho feio do Zodíaco.
Grasnava de raiva e lambia-me na frustração, às voltas com a Inês e a Astrologia. Havia semelhanças - “não posso negar”. Em vinte características elementares sugeridas ao meu Signo, conseguia eu contabilizar umas oito ou nove que batiam certo. Todavia, nenhuma garantia me era dada, de ciência certa e segura, serem consequência dos posicionamentos planetários. Podia tratar-se apenas de uma grande coincidência, pois mesmo um relógio sem corda acerta duas vezes por dia.
A falta de auto-confiança ou a timidez clássicas nas Virgens, eram em mim factualmente verdadeiras, mas às tantas… às tantas, qualquer psicólogo de pacotilha poderia apontar um excesso de protecção materna na alta infância como raiz de tal diagnóstico. E já quanto à clássica organização virginiana… Aquilo não encaixava de todo! Estávamos, mesmo, definitivamente conversados. Era certo ser um Guarda-livros, sendo que lera algures que isto de o ser era daquelas vocações profissionais tipicamente Virginianas; era certo que a colecção de CDs se encontrava meticulosamente organizada por género musical, havendo dentro de cada campo, uma ordenação onomástica; era certo, sem dúvida, mas tinha dias e eu não sabia da chave do carro para me poder ir embora.
3/07/2010
Marionetas do Horóscopo 10

Para aliviar as dores de corno, segui lendo. Ou pensando que lia. Que desconcertante, que patética a minha situação: não apenas traído, mas buscando também uma explicação astrológica para o sucedido. A que ponto podia cair um homem!
Todavia, dúvidas não me podiam sobrar: Como, se estava toda a verdade escarrapachada diante dos meus olhos? Talvez estivesse sendo um pouco impressionável pela literatura astrológica, mas o sentido que dava à sucessão desconcertante de acontecimentos... Nã! Se até os astros me revelavam o que um Ego ferido teimava em recusar ver: senão em actos, pelo menos em pensamento, fui desde o princípio traído. Mesmo sem outras provas palpáveis, o que lia corroborava o que sentia. E isso não era de todo despiciendo! Mas quem fora? Em que circunstâncias? Com o conhecimento de quem? Tratei de elaborar uma sistemática lista de suspeitos. Começando pelo fim, terminei no David. Que grande Golias!
Conheci–o no dia do nosso casamento, apresentados por Andreia com um profético: “este foi o meu primeiro namorado e ele não será o último dos maridos”. Rimo-nos muito, éramos três e os Gémeos falam de boca cheia. Como foi exactamente aquela expressão servida pela Inês num par de vezes..? Ah sim! “Ele tocou profundamente em mim.”
Seria? Ruminei outras hipóteses, mas nenhuma me parecia tão mordaz – para não dizer elegante – como “David”. E com a bobine numa mão e a câmara de projecção noutra, rodei o filme: Ela entregava-me o corpo, gemia o meu nome, mas foi o dele que sempre lhe abrasou a alma. Uma longa-metragem projectada em dois anos enquadrados por caprichos, birras e fitas…fitas em sessões contínuas, intermináveis, imprevisíveis e histéricas por não ser - “elementar, meu caro Watson” – o destemido “David”. Que grande vileza!
3/05/2010
Marionetas do Horóscopo 9

Havia dois e um deles - o outro! - fui eu, largado como um cão sem pédigri, no princípio das férias grandes que já acenavam. Cancelar estava fora de cogitação, pois nem que levasse a minha mãe para o México! Não ia perder o sinal: Reservas feitas, bilhetes comprados e uma dívida às costas…
Era duro… muito duro, mesmo! Ainda por cima com a minha mãe… Nem sequer as minhas férias, a Inês soube respeitar! Foi uma cabra até ao fim, mas apesar de todo o fel... continuava a amá-la! Não era fácil desligar a ficha: consagrara-me a ela de corpo e alma durante anos para que nada, nenhum conforto, nenhum mimo lhe faltasse. O que aquela mulher me custou! Os olhos da cara e quase o do cu. E qual foi a paga que recebi, que troco me deu? Uma relação deitada ao caixote do lixo porque na cabeça dela – senão na minha cama - fôramos três!
Quem teria sido? Quem fora? Liguei a todas as esposas conhecidas mas não registei nenhuma crise conjugal, aproveitando de permeio para chorar… pela morte da Inês. Somando pormenores à história, ia progressivamente tornando o nosso acidente num macabro festival de chapa e sangue: “o que ela agonizou encarcerada naquele carro”…
Era a vingança possível por ter fugido… Mas com quem? Com quem? Teria sido com o carteiro, com o cabeleireiro, ou com o caixeiro-viajante..? Poderia teria sido com um qualquer, não era? Torturava-me como se flagelam todos os cornos: corroendo-me em despeito e auto-comiseração… E que outra opção me restava?
3/01/2010
Marionetas do Horóscopo 8

Estava lá toda a nossa ópera bufa: desde a capacidade de comunicação inata das Virgens e Gémeos, ao criticismo das primeiras e à superficialidade dos segundos… De como nós, as Virgens, buscávamos segurança e os Gémeos procuravam a novidade incessante, de como a Virgem era potencialmente solitária e os Gémeos gregários… Como nós nos recolhíamos na concha e eles só queriam pintar a manta. Pensando bem, pensavam muito: umas e outros passavam a vida a pensar, mas enquanto uns multiplicavam, as outras dividiam. Os Gémeos construíam castelos no ar e as Virgens utilizavam os seus poderes mentais para desmanchar prazeres e pôr certa ordem no mundo – preferencialmente não lho pedindo este, como sucede com as tias solteironas. E por falar em amarguradas… As estrelas determinavam que as Virgens, insuportáveis rabugentas, - provavelmente por serem-no - tendiam a padecer de problemas de nervos, múltiplas úlceras e dores de estômago para todo o sempre. E se eu tomasse a decisão de deixar de beber também não seria mau de todo…
Num aspecto, a minha experiência pessoal amplamente comprovava o que asseguravam os compêndios: existiam, de facto, duas dentro duma só pessoa. E essa história da dualidade dava-me comichão: dois, sempre a dobrar! Gémeos cultivavam tudo em duplicado: personalidades, estados de alma, trabalhos, hobbies, estudos, leituras, filhos, animais de estimação, amantes, porra, pá! Estava de caras o que significava “Vénus em Gémeos”: um grande par de cornos, era o que significava! Nem precisava de dicionário de sinónimos ou tradução especializada. Gémeos… que duplo azar!
2/24/2010
Marionetas do Horóscopo 7

Astrologia? Passara invariavelmente ao lado do assunto e até perorara alavardidades jocosas e poderia ser de outra forma? Tinha ainda dois dedos de testa, já suspeitando que até pudesse lá ter mais qualquer coisa. Quantas vezes, ao entrar no metro, não apanhara aqueles papelinhos em que o Prof. Mamado e outros vígaros prometiam salvar-me de todas as maleitas, vícios e maus-olhados, sobretudo de mim próprio, num espaço de sete dias contra reembolso em caso de não satisfação? Quantas? 7 x 70? As promessas eram estupendas e quais políticos, qual carapuça! Nem mesmo Jesus Cristo seria capaz de tantos milagres em tão pouco tempo! Os astrólogos videntes eram simplesmente fantásticos.
Uma vez, inclusive, cheguei ao cúmulo de ler na secção de horóscopos dum jornal diário que “hoje você será pedido em casamento”. E ao menos aí, na suprema evidência do fatal fiasco da astrologia - “hoje você será pedido em casamento” - acertaram em cheio! Senão, façam-se contas: dividindo 10 milhões de portugueses por 12 signos, resultavam aproximadamente 800.000 Virgens, do que se induzia a altíssima probabilidade estatística de que alguma – por mais Virgem que fosse – desencalhasse naquele dia.
Era essa a minha experiência: não muito boa, por sinal. E era também escassa: até então, os meus conhecimentos astrológicos resumiam-se a um “nasci em Setembro, logo sou Virgem” a “Maya lança cartas” e descobrira, entretanto, que a Inês tinha a “Vénus em Gémeos”.
Ao folhear o primeiro dos livros, espantei-me. Estava, obviamente, familiarizado com textos de teor profético, ou não lesse compulsivamente às páginas dos diários desportivos! Mas aquela literatura… Pela madrugada! Era mais suculenta do que uma boa antevisão dum derby.
Diziam-me no livrinho que o signo Virgem, como São Tomé, vê para crer… e o que vi, pois então… Fiquei encandeado, ceguei até de tanta luz! Limpava os olhos, esfregava as lentes dos óculos – salpiquei a cara! - mas ainda lá se encontrava com um inegável grau de afinação, a descrição perfeita da minha relação com a Inês!
2/23/2010
Marionetas do Horóscopo 6
Perdido nesses pensamentos, procurando o Norte dum plano blindado, dei por mim tombado num problema mais sério por resolver: esgotado o whiskey, as garrafas vazias ordenavam-me o dever do trabalho. E tendo que aturar o chato do chefe, as burocracias do costume e a indigência dos propósitos do meu labor, supus e suspirei para que facilmente deixasse a tragédia das minhas desventuras sentimentais para trás das costas.
Mas qual quê! O pensamento movia-se em círculos e se já ajustara mentalmente uma série de contas com o passado nos dias anteriores, havia contudo uma equação, cuja incógnita continuava por apurar: "Vénus em Gémeos"... De manhã, tentei distrair-me com as tarefas acumuladas pelos dias de absentismo, mas depois… oh, depois do almoço, meia garrafa de tinto e um balão de conhaque!
Não havendo mais que fazer, sobretudo nada de importante, fui buscar um livro à estante para me dar o sono e conseguir dormir a sesta. Durante anos servira-me da minha profissão para ler alguns romances e bastantes jornais desportivos, mas naquele dia, sob efeito da separação, do álcool também, não procurei - como era meu timbre - saber das últimas sobre o Benfica. Não! Segui em frente e não me detive no expositor de jornais: tinha uma cota na mão e um fito em mente: "Vénus em Gémeos".
Passara, invariavelmente, ao lado do assunto e poderia ser de outro modo? Tinha ainda dois dedos de testa, já suspeitando que lá pudesse ter mais qualquer coisa... mas perder o meu tempo com "astrologia"? Foi só por descargo de consciência que abri o meu primeiro manual e assim me propus perceber a piada de mau gosto na despedida da Inês: "Vénus em Gémeos"...
