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1/18/2010

7 palavras mágicas

Uma história infantil para putos inteligentes e adultos pouco parvos.
Um dia gostava de contá-la aos nossos filhos,
linda Inês...


Há muito, muito tempo atrás num pequeno país cujo nome já foi esquecido na nossa era, numa terra no fim Ocidental do mundo, com o mar inteiro diante de si, vivia um povo feliz que se espreguiçava ao Sol. Eram gentis, sábios sonhadores cujas artes, ciência e obras eram inspiradas nas intuições que tinham durante as noites. Os sonhadores não acumulavam riquezas mas amigos, cantavam poemas e contavam histórias, dançando à volta de grandes fogueiras e adorando os bosques e as altas montanhas.


Não se sabia muito bem porquê… Porque sonhavam tanto e porque perseguiam os seus sonhos; também se desconhecia de todo o que estava por detrás das visões que os assaltavam ao luar; sabendo-se apenas que eram afáveis e que partilhavam, com os viajantes de outras raças, credos e línguas, que àquelas terras chegavam, os sonhos que tinham.

Este povo fraterno e bom, cantarolava ao vento que todos os homens e mulheres eram iguais e livres como os pássaros, não se devendo matar uns aos outros por um metal dourado, mas raro, que ainda hoje se chama ouro. E os viajantes que os visitavam voltando às suas terras de origem, levavam também os sonhos dos sonhadores com eles, germinando nos outros povos a vontade de também sonhar, sonhar muito e cumprir os sonhos.


Havia, porém, quem não gostasse nada dessa ideia, da ideia das pessoas terem sonhos. Tratava-se do Imperador, que era um homem gordo… Tão gordo tão gordo tão gordo, que em surdina - porque tinham medo dele – chamavam-no as pessoasde Bucha. Ora o Bucha achava os sonhos subversivos e perigosos...


O Imperador Busha era muito ambicioso e egoísta. Desejava tornar-se no homem mais poderoso do mundo, de todos os mundos e de todos os tempos, vivendo o delírio de ser recordado dali a 1000 anos. Queria entrar para os livros de História o Imperador Busha, queria que as gentes e as gerações vindouras o adorassem e lhe erguessem estátuas, mas como não sabia fazer nada de jeito, como não era um grande jogador de futebol, um músico virtuoso ou um cientista de génio, restava-lhe apenas ser recordado como aquilo que era: ser maus como as cobras. Pôs-se, portanto, a fazer a guerra, tornar-se num grande conquistador e, dessa forma, imortalizar-se.

Durante anos assim foi. Enquanto ele caçava, jogava às cartas e bebia vinho, os seus soldados foram guerrear os povos vizinhos. De início, o Imperador Busha não cobiçou o País dos Sonhos, porque ali não se acumulavam riquezas (apenas amigos) e não havendo ouro e tesouros afins, não havia como tornar a guerra lucrativa. Todavia, à medida que os sonhos dos sonhadores iam sendo sonhados por outras gentes, o Imperador Busha foi ganhando o temor que a sua grande obra, afinal, não fosse assim tão apreciada como julgara.

Se calhar, não apenas não iriam celebrar as suas conquistas dali a 1000 anos como - às tantas! - o seu próprio povo, que ele tirano oprimia com mão-de-ferro, ainda se punha a sonhar com a queda do seu Império. Então, receando muito uma epidemia de sonhos, o Imperador Busha lá chamou os seus generais. Estes escutaram-no mas não queriam ir guerrear para o País dos Sonhos, preferindo fazer a guerra com outros povos que tinham muitas riquezas e poucos amigos, mas o Busha era o Imperador e no Império, os homens eram apenas livres de obedecer...

Ora, perante as ordens e as ameaças do seu chefe, os generais trataram de arregimentar todos os jovens que encontraram como soldados. Durante meses treinaram os rapazes e raparigas nas artes da guerra e do ódio, sobretudo do medo. Disseram-lhes que os sonhadores possuíam sonhos secretos de destruição massiva. Falaram-lhes dos feitiços ferozes, dos hábitos diferentes e de serem os sonhadores azuis como os sonhos.

Quando tudo ficou pronto; quando os soldados estavam bem amestrados e obedientes; quando sabiam matar com eficácia; puseram-nos todos em fila, em linha e apertadinhos… e marchou para o País dos Sonhos o exército dos mata-sonhos: uma falange enorme, que se estendia por vales inteiros, pisando as flores e estremecendo o chão com o seu passo cadenciado. O Imperador, no seu palácio, esfregou as mãos de contente, antevendo o fim dos sonhos; e ficou esperando, quentinho à lareira, por notícias da guerra.


Todavia, as coisas não correram como o Busha planeara e pensou, pois há medida que os seus soldados se embrenhavam no País dos Sonhos… puseram-se também eles a sonhar! Começaram a sonhar com as suas casas e as suas terras, com os amigos, as famílias e aqueles que amavam. Sonhavam, sonhavam… sonhavam com as cearas por ceifar e as rodas de oleiro que tinham abandonado. Não era somente saudade, nos seus corações a semente dos sonhos realmente brotava. Quanto mais tempo estavam no País dos Sonhos, mais sonhavam com a paz e por não terem de andar à espadeirada com gente que nunca lhes fizera mal e que eles nem sequer conheciam.

Quando finalmente avistaram a primeira das cidades do País dos Sonhos, já tinham perdido toda a vontade de lutar, apenas sonhando em voltar sãos e salvos para as suas cidades e aldeias de origem. Os generais, de tão habituados às guerras e às matanças, de tão brutos que eram, ficaram imunes. Mas se não sonhavam, também não andavam a dormir. Ainda insistiram… mas não muito, receando que as suas tropas, recusando-se a combater as gentes da terra dos sonhos, virassem as espadas contra eles. Muito chateados, lá tiveram de dar guia de marcha-atrás aos soldados, antes que estes sonhassem em demasia.

Quando regressaram e o Imperador Busha foi informado do sucedido, teve um ataque de raiva, espumando da boca, partindo coisas e dando pontapés nas pessoas. Ficou furioso e voltou à carga: sete vezes tentou invadir o País dos Sonhos e por sete vezes os seus soldados puseram-se a sonhar. Por fim, os generais lá convenceram o Busha que o melhor era deixar os sonhadores em paz, pois de cada vez que os soldados volviam, traziam os sonhos com eles e contagiavam as outras gentes que vivam sob o Império do Busha, havendo cada vez mais sonhos sobre o fim do imperador e das suas guerras.

Vencido, mas não convencido, o Imperador Busha jurou vingança e ditou que nenhum contacto fosse doravante tido com o País dos Sonhos, ordenando que se construísse um muro que isolasse os sonhadores do resto do mundo. Depois, mandou os seus generais mata-sonhos perseguir quem sonhasse dentro de fronteiras. E assim foi.

Tinham passado 7 anos sobre a última das 7 tentativas do Imperador Busha para conquistar o País dos Sonhos, 7 anos em que outra coisa não fizera senão perseguir e prender os que sonhavam no seu Império. Para o distrair, os seus ministros inventaram-lhe um jogo com o mapa do mundo, uns bonecos e dados com os quais ele se entretinha, fingindo que mandava as suas tropas para uma batalha ali e que conquistava aquele terra acolá, e que um outro país se rendia e pagava tributo e etc., etc., etc...

Mas o Busha não tinha desistido de entrar para os livros de história e, por causa disso, quis arranjar uma noiva. Pensava ele que, para ser lembrado dali a 1000 anos, tinha que fundar uma dinastia: depois do Busha I, sucederia o Busha II e depois deste o neto Busha III e por aí fora: uns Bushas atrás dos outros...


Enviou o seu retrato para as cortes dos vários países e ficou aguardando resposta. Já estava a ganhar raízes de tanto esperar, pois as princesas sabiam que ele era bruto e dava pontapés, quando uma por fim apareceu. Viria ao engano? Era linda como a Primavera, tinha o perfume dos morangos e era a princesa da Sabedoria.

Uma princesa chegara, mas para grande desapontamento do Busha, não viera por ele. A princesa contou-lhe que aos 7 anos tivera um sonho, segundo o qual deveria partir em viagem dali a outros 7 anos e durante mais 7, cruzaria o mundo conhecido desde o País do Sol Nascente até ao Ocidente. Seria nessas terras, apenas com o mar sem fim para diante, atrás do qual se punha o Sol, que ela iria encontrar o cavaleiro com o coração puro, tão puro como as neves das serras do seu país natal.


Como sonhara tudo aquilo aos 7 anos, e tivera de esperar outros 7, pôs-se a ler livros, uns atrás dos outros, para se distrair e instruir o espírito enquanto o sonho não se cumpria. Devido a isso, por ler tanto e ser tão sábia, é que a chamavam de “Princesa da Sabedoria”. Estava ali apenas de passagem e diplomaticamente recusou as prendas e as promessas, negando-se a casar com o Imperador Busha.

Este ficou louco de raiva! “Malditos sonhadores” bradou furioso. “Os sonhos são a consolação dos tolos e dos fracos”. E continuou por aí fora, maldizendo tudo e todos, partindo coisas e dando os pontapés do costume. Por fim, vendo a consternação e choque da princesa, não havendo mais nada para partir e percebendo que ela se recusava a ser sua, berrou-lhe: “ Eu posso obrigar-te a casar comigo. Sou o Imperador, faço aquilo que quero e me dá na gana. Já vais ver o que faço aos teus sonhos.”

A princesa corou muito e respondeu-lhe: “Eu nunca sequer dei um estalo a alguém, mas se me obrigasses a casar contigo, juro-te que quando te apanhasse a dormir te enterrava uma agulha de crochet no coração” - Assim falou a princesa doce e delicada como uma boneca de porcelana, mas que não estava para ser abusada por ninguém, muito menos por um gordalhufo arrogante como o imperador Busha. Este ficou branco como a cal e à sua volta todos se emudeceram com aquela cena. Nem as moscas se atreveram a zumbir… Até que alguém exclamou: “Isto é o fim da picada! O fim da picada!”


Em redor da voz abriu-se logo uma clareia e todos se voltaram para ver quem tinha quebrado aquele silêncio de morte…

“ Permita-me que me apresente – disse um velhote -, sou o Mago Maia, faço parte da escolta da princesa e com ela tenho viajado todo este tempo, mas já estou cansado, não me apetece gastar mais as solas pelos sonhos duma jovem desmiolada que atravessa o mundo inteiro para descobrir um príncipe encantado. Sinceramente, estou farto! Assim queira vossa excelência o Imperador Busha e desde já ponho os meus serviços à sua disposição em troca duma bela vivenda, mais um bom salário que me permita comprar os ingredientes para as poções mágicas, os chocolates de que tanto gosto e manter uns trocos no bolso para cigarros e bilhar.”

A princesa não queria acreditar que o Mago Maia a traísse dessa maneira tão vil e o Imperador Busha tampouco cria que tudo aquilo fosse mesmo verdade… Mas teria toda aquela trupe saído de uma casa de loucos..?

Porém, o Mago Maia magicou umas manhas e tirou uns truques da manga para provar que era um feiticeiro. “Bravo, Bravo” – brindou o Busha, encantado com o número dos coelhos que saíam da cartola. E como o Maia era tão bom mago, pediu-lhe logo que fizesse um feitiço que hipnotizasse de amor por ele a bela princesa, fazendo-a esquecer-se dos seus sonhos. O Mago Maia disse-lhe que sim, "claro"… Mas... "bem... há um pequenino problema".

“Um problema?” – resmungou o Busha – “Mas eu estou farto disto, há sempre um problema, um contratempo qualquer a estragar-me os planos” – e como estava furioso saiu do salão e foi para o corredor partir mais uns móveis.

Quando o Busha regressou mais calmo, o Mago Maia lá se desculpou, explicando que isto das feitiçarias tinha sempre um reverso da medalha. Ele podia deixar a princesa louca de amores pelo Imperador, sim, mas seria um truque, não seria amor verdadeiro.

“E que me importa isso?” – Inquiriu o Imperador. "Uma vez que o amor da princesa pelo imperador seria uma ilusão, nunca a Princesa Sabedoria lhe daria filhos, pois a semente da vida é o amor, o amor verdadeiro” – insistiu respondendo o Mago Maia.

“Diabos!” - Berrou o Busha – mas qual por amor qual carapuça! Eu quero uma mulher que me dê filhos, quero sucessores para o meu reino… E de preferência quero uma princesa que me dê também estatuto, vinda dum reino poderoso como o meu, para assim juntarmos forças e conquistarmos o mundo. Que pouca a sorte a minha – continuou o Busha – vocês não servem para nada! Estou rodeado por uma cambada de inúteis sem serventia nenhuma!”

O imperador voltou a ficar vermelho de raiva. Daquela vez, nem teve de se deslocar, porque os seus criados depressa lhe trouxeram umas loiças e cristais para ele partir à vontade. No fim, quando estava tudo em cacos, gritou ao Mago Maia: “Estou em crer que tu és mais farsante do que feiticeiro e como fiquei farto de tantas esfarrapadas desculpas vou-te cortar a cabeça. Guardas! – grunhiu o Busha – Cortem-me a cabeça a este vigarista!”

O Mago Maia rogou misericórdia, prometeu tudo ao Imperador, desde uma infalível loção capilar à chave seguinte do totoloto. Chorava baba e ranho quando lhe disse: “Já sei, já sei, já sei como farei o Imperador feliz: enfeitiçarei os seus os seus piores inimigos. Diga-me Imperador, quem são os seus mais perigosos inimigos?”

O Busha não teve de pensar muito: logo respondeu que os mais perigosos de todos eram os malditos sonhadores do País dos Sonhos que teimavam em sonhar. Ao que o Mago replicou que sendo assim… “Sendo assim, tenho uma fórmula para que deixem de sonhar”

“Mas como é que tu podes enfeitiçar todo um povo oh Mago Maia?” - perguntou o Imperador.

“O feitiço opera através de uma poção – disse o Mago Maia – para a darmos a beber a todo um povo, basta envenenar os rios donde bebem a água com a mistela mágica...”

“Estou a ver – respondeu-lhe o Busha – mas qual é desta vez o reverso da medalha?”

“Este feitiço dos pesadelos – disse o Mago Maia – sendo bem forte, torna elevado o preço a pagar: o sacrifício humano, de alguém com sangue azul, da estirpe de antigos reis. De resto é tiro e queda e os sonhadores deixarão de sonhar.”

O Busha, com uma luz de malícia nos olhos, esfregou as mãos de contente. “É preciso sacrificar alguém? Sacrifique-se a princesa que assim sempre tem alguma serventia” – Ordenou o Imperador (rindo-se muito) para que assim se fizesse.


E assim se fez! Para o Rio Grande que, correndo para Ocidente, atravessava o País dos Sonhos, dirigiram-se o Busha, o Mago Maia e com eles a Princesa da Sabedoria arrastada e agrilhoada. A princesa bem esperneava, mas o que poderia fazer ela contra aqueles brutos?

Numa língua estranha e com uns gestos teatrais, o Mago Maia operou a feitiçaria e, duma pesada ânfora, despejou um líquido verde sobre as águas que corriam… que corriam para o País dos Sonhos. Ao mesmo tempo que a viscosa e verde poção mágica caía sobre o azul do Rio Grande, a princesa ia sendo sacudida por arrepios de frio, arrefecendo, tornando-se branca e lívida, até que em torno de si se foi formando uma camada de gelo, como se uma película de cristal a envolvesse. Quando a ânfora se esvaziou por completo, a princesa virara uma estátua, um bando de corvos sobrevoou em círculos a negra floresta onde tudo se desenrolava e o Busha riu-se com muita maldade. O feitiço dos pesadelos poluía já as águas que corriam para o País dos Sonhos…

7 anos passaram, sem sonhos e com grandes discórdias atravessando o coração das gentes do País dos Sonhos. O povo que era feliz espreguiçando-se ao Sol, deixara de sonhar e sem sonhos… Sem sonhos a vida deixara de ser vida. Os sonhadores já não se embalavam em sonhos, deixando de adorar os bosques e as altas montanhas, perdendo a fé nos poentes e mirrando em tristeza.

Já o Mago Maia, na sua vivenda, foi comendo chocolates… E o Imperador Busha (enquanto não arranjava noiva a condizer) sossegado por mais ninguém sonhar no País dos Sonhos, retomou os seus planos de grande conquistador, fazendo novamente a guerra àqueles povos com muito ouro e poucos amigos.

No País dos Sonhos que tinha sido uma terra de vinhas, mel e de boa aventurança, apenas um entre os sonhadores teimava em sonhar. Era o Cavaleiro Monge, o maior de todos os sonhadores. Ele sabia, ele sempre soube que o dia viria em que na terra dos sonhos deixar-se-ia de sonhar, o dia viria em que os irmãos, em vez de cantarem uns para os outros, andariam à pêra e ao pontapé… “O dia viria, o dia viria” – repetia ele lembrando-se das antigas profecias. E quando esse dia veio, o Cavaleiro Monge não vergou os ombros, cruzou os braços ou desistiu de sonhar… Não! Talvez por força do destino, decerto pela têmpera do seu carácter, o Cavaleiro Monge continuou a sonhar, teimou em sonhar sempre, sonhava e sonhava na forma de devolver os sonhos à sua terra e à sua gente.

Ao fim de 7 anos, 7 anos de pesquisas e de esforços, dirigiu-se à Capela Inacabada. Era lá que os seus sonhos o conduziam: à capela onde dormia sepultado um antigo rei, que trouxera as gentes dos sonhos para aquele pedaço de terra. Lá se encontraria a solução… Ele ainda não percebia como, mas a resposta lá estava e para ali foi.

Numa colina deserta, no meio de nada, com heras e outras ervas crescendo entre as antigas pedras, encontrava-se a Capela Inacabada. Estava a construção por concluir porque as gentes do País dos Sonhos não tinham fechado a abóbada, deixando a capela sem tecto, de modo que o antigo rei que ali dormia sepultado tivesse como telhas as estrelas, sonhando o céu infinito que o velava no sono eterno.

Cruzando os grandes portões há muito cerrados, o Cavaleiro Monge procurou, procurou por toda a parte, inspeccionou as antigas inscrições, as pequenas estátuas e as grandes colunas da Capela Inacabada. Passou nisto um dia inteiro e quando a noite veio, esticou a esteira e pôs-se a dormir, porque talvez dormindo o assaltasse a solução em sonhos…

E não é que foi mesmo! Decerto estaria sonhando quando 7 fadas lhe apareceram e segredaram que quando acordasse, olhasse os céus pois veria uma estrela cadente, uma única estrela cadente riscando o escuro. A direcção que a estrela apontasse na sua queda seria o caminho que deveria percorrer em 7 dias. No fim da viagem, marchando no sentido marcado pela estrela, encontraria algo tão extraordinário na sua rota que logo ali sentiria que não precisaria seguir mais adiante, porque teria chegado à solução do mistério. Seria então necessário dizer as 7 palavras mágicas, 7 palavras que ele em silêncio deveria escutar ao seu coração.

Talvez tivesse sido a mão duma das fadas que o despertou ou simples coelho passando por cima dele, mas em sobressalto se levantou na noite o Cavaleiro Monge para olhar os céus e contemplar encantado a queda duma estrela… na direcção do Oriente, na direcção do Império!

Não esperou mais, porque tudo podia ter sido um simples sonho… mas os sonhos faziam sentido e aquele então… “Pois claro” – pensou o Cavaleiro Monge –“ Se alguém está por detrás da nossa desgraça é o Imperador Busha!


E pôs-se a caminho! Durante 7 dias de abalada para Oriente, cruzou as planícies e os planaltos, acabando, através de passagens muito ignoradas, por desembocar na nasceste do Grande Rio. O Cavaleiro Monge não tinha contado os passos ou as horas, porque não precisava: no sonho que tivera, ficara claro, pelas fadas, que sentiria quando chegasse, o destino final da sua viagem.

E que outra coisa poderia ele encontrar senão a estátua de gelo que era a Princesa Sabedoria encantada e sacrificada no feitiço “fim dos sonhos”? O realismo da estátua, o fantástico facto de se conservar em gelo em pleno Verão, mas sobretudo a beleza serena da mulher esculpida, maravilharam o Cavaleiro Monge.

Mas como poderia aquela estátua encerrar a solução do fim dos pesadelos entre os sonhadores? Sentou-se diante dela, não apenas pelo cansaço, mas para meditar… que deveria fazer? Dizer 7 palavras mágicas? Mas quais palavras mágicas? Pôs-se a experimentar… Outra coisa não fez senão dizer palavras, umas atrás das outras, em sequências de 7, desde as coisas mais parvas até às fórmulas mais cabalísticas e potencialmente mágicas.

7 dias e 7 noites levou naquilo, até que já muito irritado por nada suceder, desesperado e sem imaginação para mais, tirou a espada da bainha e começou a golpear a estátua de gelo. Uma espadeirada atrás da outra, mas o gelo não quebrava e o Mago Maia lá muito ao longe sentiu as pontadas.

Ele estava na sua vivenda a comer chocolates. Todavia, cada uma das pancadas do Cavaleiro Monge sobre a estátua de gelo, era uma pontada que sentia o Mago Maia no joelho esquerdo. Alarmou-se o Maia, fez a poção do touro vermelho, ganhou asas e voou para lá, para onde o Cavaleiro Monge e a princesa se encontravam.

“Pára idiota!” – ordenou à sua chegada o Maia ao Cavaleiro Monge.

O Cavaleiro Monge parou e perguntou-lhe o que era aquela estátua e que relação tinha ele – o Mago Maia – com tudo aquilo.

“Tenho tudo a ver, mas não és tu quem faz aqui as perguntas” – replicou o Maia – “ Antes sou eu quem dá as ordens!” - E erguendo a mão direita, ao mesmo tempo que dizia uma ladainha, logo fez brotar da terra 7 monstros ciclópicos (com um único olho na testa) que se atiraram ao Cavaleiro Monge.

7 golpes desferiu o Cavaleiro Monge, 7 golpes apenas e trespassando com a sua espada cada um dos 7 monstros, avançou para o Mago Maia a quem apanhou pelos colarinhos antes deste conseguir trepar a uma árvore… É que o reverso da medalha do feitiço dos guarda-costas ciclópicos era senão a perda momentânea dos poderes mágicos e outras habilidade durante uma hora por cada monstro invocado.

Foi por isso que o Maia não pôde fugir ou tirar outro truque da manga e encontrando-se indefeso apenas lhe restou tentar aliciar o Cavaleiro Monge.

“Dou-te todo o ouro e chocolate que quiseres” – tentou-o, primeiro com riquezas, o Mago Maia.

“Não há maior tesouro que a amizade” – Respondeu o Cavaleiro Monge, recordando todos os amigos do País dos Sonhos que decidira salvar.


“Farei tua a mulher mais linda deste mundo pois eu, o Mago Maia poderoso feiticeiro, sou capaz de tudo.”


“O amor duma mulher conquista-se pela verdade” – E tampouco a tentação da carne desviou o Cavaleiro Monge da sua missão. Este talvez nem se apercebesse, porque ao fim de 7 dias e 7 noites, falando em sequências de 7 palavras em busca da fórmula mágica, já só sabia responder de 7 em 7 palavras, como se fosse a coisa mais natural deste mundo.

Realmente assustado e temendo pela sua vida, o Mago Maia tentou o tudo por tudo e disse-lhe: “a ti cavaleiro que vens do País dos Sonhos na demanda de um, te ofereço todo o Império se vieres comigo. Que tens agora senão um ou dois sonhos e uma mão cheia de nada? Vem comigo, eu ofereço-te o Império numa bandeja. O Busha está gordo, velho e acabado. É chegada a altura de um jovem cavaleiro tomar o seu lugar. Vem! Vem comigo!”

“O poder a mim não me seduz” – argumentou o Cavaleiro Monge, recusando as glórias.

“Mas então és louco, és um louco sonhando quimeras?” – Perguntou-lhe o Mago Maia.

“Seja! Seja portanto um louco! Vim aqui em busca de um sonho e não para me corromper.”

O Mago Maia ficou verde com a resposta. Verde como a poção do feitiço do pesadelo, verde como a inveja, verde como as canas que ao vento bailando, tremiam menos do que as suas pernas e palavras rogando clemência ao Cavaleiro Monge.

“Mas não há nada a fazer, cavaleiro – disse-lhe o Maia – pudera eu fazer algo, mas não! Tu, o último dos sonhadores, vens atrás de um sonho que não se realizará nunca, jamais. É verdade que sou o culpado, que fui eu quem lançou um feitiço sobre o País dos Sonhos a mando do Imperador, mas não me mates que assim também não ganhas nada e eu não te posso valer, porque o feitiço uma vez lançado não tem mais fim.”

O Cavaleiro Monge não acreditava nas palavras traiçoeiras do Mago Maia. Este não podia estar a falar a verdade, mas ele ia arrancá-la nem que fosse a ferros. Não fazia contudo tenção de matar o Maia, pois se alguém tinha a resposta para o enigma… era ele! Queria apenas assustá-lo, porém o Mago morria de medo – literalmente de medo – chorando baba e ranho às mãos do Cavaleiro Monge.

Coisa curiosa… Na única vez em que o coração do Mago Maia deu sinal de vida, foi no momento exacto da sua morte quando o teve um ataque cardíaco do susto que apanhara…

Com uma estátua de gelo ao lado, 7 monstros por terra e um feiticeiro que tinha ido desta para melhor, levando para o túmulo a resolução do enigma, jurou o Cavaleiro Monge não desistir nunca dos seus sonhos e olhando os céus que até ali o conduziram clamou:

“Os sonhos alimentam a alma da gente!”

Foram essas as palavras que, expressando a fé do Cavaleiro Monge nos sonhos, se revelaram mágicas. O milagre deu-se e o gelo quebrou. O gelo da princesa desfez-se no momento exacto em que o Cavaleiro Monge disse “os sonhos alimentam a alma da gente!”

Ao longo de 7 dias e 7 noites dissera muitas frases de 7 palavras quase ficando rouco, roxo e louco de tanto palrar e puxar pela cabeça. Dissera já tanta coisa… Teriam sido mesmo e exactamente aquelas 7 palavras a quebrar o gelo ou fora o calor da sua fé inabalável? Nunca se chegará verdadeiramente a saber… E Também isso pouco importa porque é bonito deixar espaço para o sonho.

Um enorme arco-íris rasgou os céus. Fazia Sol e não chovia… A não ser que chovessem sonhos coloridos no país deles… Era fácil de imaginar, não era..? O Imperador Busha que se acautelasse: os sonhos iam voltar em força.

Despertada do seu longo sono, como que parecendo ela também vinda de um sonho, a Princesa Sabedoria olhou para o Cavaleiro Monge que a adorava, joelhos no chão e como este mais nada fizesse, disse-lhe: “Mas de que estás tu à espera? Beija-me tonto!” E o cavaleiro beijou-a, partindo depois os dois muito abraçados para o País dos Sonhos onde os pesadelos tinham terminado por fim.

12/13/2009

as Origens do drama


Neste post, relato na íntegra a história do meu amor por Inês, para que se perceba melhor porque tanto a procuro. Podem fazer download, copy-paste, passar de mão em mão e até enviar-me pistas sobre o seu paradeiro.

Inês era uma virtuosa pianista. E escrevo "era" porque… um problema com o álcool não só lhe arruinou os nervos, como lhe entaramelou o talento e sobretudo… sobretudo, lhe descoordenava os dedos: falhava teclas, a linda Inês.

Desde há muito que a conhecia, mas sempre considerara certas manifestações de excentricidade como marcas de um génio criador! Só me apercebi verdadeiramente da dimensão do drama para o qual deslizara a Inês, quando num dia, por mera casualidade, me surgiu em Tomar, por ocasião dum Festival Medieval e nela tropecei, enquanto actuava entre jograis, artífices e mercadores.

Descobri-la tão só, carente, emocionalmente devastada, foi do menos… como não me aproveitar? Pelo contrário, foi na reflexão que não tive, que me perdi e fui atrás dela!

Fomos beber, não apenas porque se organizam festivais no estio também para isso, mas porque Inês bebia bem e pouco não lhe bastava! Nada de mais, de resto (isto de beber copos), entre dois amigos reencontrados, lembrando histórias antigas, comentando percursos e … coisa curiosa: traçando planos para o futuro! Desde logo Inês se entusiasmou com a minha obra lírica nascida e eu desde cedo aceitei com bastante deleite que ela me desse música, significando com isso que me musicasse os poemas... Selámos o princípio da nossa colaboração artística com um shake-hands e outra Macieira.

E depois… Bom, depois para não dar azar, pedimos nova rodada e assim seguimos pela tarde fora, macieira atrás de macieira, porque três era a conta que Deus fez, quatro para brindar ao Teatro e por diante a despejar matemáticas de mudas semicolcheias e versos falhados…

Estariam destinados a falhar? Sem tempo para ressacas emocionais, subimos pelo poente ao Castelo dos Templários e lá no topo da colina, por entre as ameias, ao longo das muralhas, erguidas ao Tempo, era impossível que não me viessem à cabeça, mesmo bêbada como estava, miragens de guerreiros árabes chocando contra cavaleiros cristãos. Que viva imaginação, não..? Mas as macieiras tinham sido algumas...

Estávamos todavia sós e o cenário ajudava, mas a prova irrefutável do meu fraco lirismo foi que nos pusémos a jogar não libidinosos duelos, mas Xadrez! Como desencantou ela o tabuleiro? Nunca me quis dizer. Mas foi uma partida de Xadrez que pautou a escrita dos primeiros versos para a Inês que quero ainda ter por rainha do meu Castro!

Eu estava com as pretas – e jogava, portanto, pelos mouros – tentando prosseguir no tabuleiro as lúbricas investidas em que teclara ao longo da tarde…

Por isso escrevi:

Do Levante vem moreno,
Aquilino e de turbante…
Esse arábico veneno.


Aquilo era mais do que um jogo! Parecia uma guerra de verdade com exércitos avançando, geopolítica e baixa diplomacia. A situação era complexa e Inês, a Inês que ainda não se sabia de Castro, pôs-se a pensar, a pensar… pseria na jogada seguinte?

Estávamos num impasse do jogo e do romance, mas de coração acelerado e espírito ébrio, prossegui eu o poema:

Oh sedutora e sediciosa amazona…
Mostrarás tu à Península agachada,
Que a coragem vem de dentro, vem à tona,
Nos teus olhos visionários de fadada?


E o que me responde Inês? “Roque” foi a sua resposta e fez aquela jogada do Xadrez na qual o rei avança duas casas para o lado por troca com a torre, assumindo uma forte posição defensiva.

Ora Roque em inglês diz-se Castling. Castling!
Daí ter escrito “Pois à Menina do Castling” - que é como quem diz:

À Menina do Castelo
Sua égua presto selo.
Dou-lhe a espada, a malha d’aço,
Mais o escudo brasonado para o braço.


E de elmo emplumado a pena branca,
Tão airosa com o olhar conquistador,
A intrépida mocetona lá desanca
Sobre o mouro, o infiel, o Almançor.


O Almançor foi um famoso guerreiro árabe medieval que lançou o pânico na Península cristã… Mas no fim… Tanto na Península, como no poema e na partida, as pretas jogaram… e as pretas perderam. Como costumam dizer, porém, azar ao jogo, sorte no amor. Éramos dois mamíferos em pleno Estio e já bem embalados de Macieira, nos enfrascámos de mãos dadas, fazendo o que dois adultos responsavelmente bêbados por vezes fazem.

Claro! Claro que nos sentimos constrangidos. Era necessário pousar um certo recato. Ela, então, corava em prantos, arrependidíssima, como estava!

“Não, isto não pode ser!” – dizia-me – onde já se viu uma colaboração artística acabar na cama? “

“Bom… realmente, ora deixa cá ver, só com o pianista Mário Laginha e a cantora Maria João, os escritores Simone de Beuavoir e Jean Paul Sartre, os pintores Diego Rivera e Frida khalo, os ladrões Bonnie and Clyde, o Zé Pedro dos Xutos e a Xana dos Rádio Macau… Queres que continue a lista? Estou de ressaca e já me dói a cabeça”

“Mas Não! – replicava a Inês – Tu não me conheces, não sabes quem sou. Eu não sou a tua terra prometida das vinhas e do mel, poeta parvo! Nada florirá no fel em que me tornei… e eu… eu apenas posso destruir quem se aproximar demasiado de mim! Pára! Pára agora que apenas te posso arrastar para os abismos alcoolizados da macieira na qual mergulhei. Afasta-te! Afasta-te enquanto é tempo poeta parvo!

“Não digas asneiras, Inês” – pedia-lhe eu.

“Não digas asneiras tu” – insistia a Inês – “A tua Inês de Castro não existe. Não existirá jamais! Não há aqui nenhuma Inês de Castro! Tudo não passa duma figura literária que criaste na tua cabeça. Diante de ti tens apenas a Inês do Cacho! Será que não te cheira?”

Ela bem me avisou mas tonto de amor, sob efeito ainda da muita Macieira tragada, tornei-me também lírico e contrapus:

“Apenas tenho olhos para os teu encantos e mesmo se de nesga miro essas nuvens negras acasteladas em teu redor, não serão tão absurdos presságios que me farão render. Não! Nunca! Não! Jamais te largarei de vista!”

Era bom o nível de argumentação, mas a senhora nitidamente fazia género e ia a jogo:

“Vá afasta-te” – como quem diz: “de que, estás à espera? Beija-me!”

“Isto não vai dar certo” – no que deveria ser traduzido por: “pega-me pela mão”

E aquela não era situação que devesse ser ultrapassada simplesmente a goles de Macieira! Sentindo que era necessário recorrer à artilharia pesada, fiz birra, virei-lhe as costas e puxei pela cabeça, para poder responder à minha linda Inês do seguinte modo:


O Futuro era agora

És, querida, o meu Breton,

Mais fogosa que baton

Rubro, rouge e escarlate,

Desses que tu nunca usas

Pra imitar plásticas musas

Que pousando, julgam arte,

As vaidades alabastrinas

Com que entopem as latrinas.

São fogo-fátuo e fraco néon

De revista “cor-de-rosa,”

Com que publicista ousa

A nós todos impor tom.

Mas hás tu!

És tu a revolução surrealista,

És o corte epistemológico,

Digital e analógico,

Iconoclasta e simbolista!

Mais concreta que o betão,

Só a utópica ilusão

Com que pregam os teus olhos,

Tua fé e os meus sonhos:

São apóstolos risonhos

A cujos pés se estala o mar.

E a maré que vindo, vem enchendo,

E nos invade as fortalezas construídas

Por aquela areia granulada, muito fina,

Com que erguemos pela manhã

Em pueril descontracção,

As muralhas destinadas

A barrar o mar, as leis da física,

Mais os astros em rotação.

E depois..? Bom… havia alguns restos de Macieira dentro da garrafa e fizemos o que dois adultos razoavelmente ressacados por vezes também fazem na manhã seguinte.

Todavia… O meu instinto de sobrevivência não estava totalmente embriagado. Bem sabia que esta Inês era um sarilho andante... um desconcerto sem emenda, fadada como estava, a virar a minha vida do avesso. Não por lirismo escrevera “És tu! És tu a revolução surrealista”.


Mas eu tinha caído, não é? Finalmente encontrara uma rapariga ainda mais… como dizer… ainda mais surrealista que eu! Tinha caído pela promessa de encantos e de sombras: Nocturnas de Chopin e versos de Sophia de Mello Breyner por serões sensualistas, servidos de Macieira… Seria lindo: um amor e uma cabana... lindo, mas não para o fígado.


Por isso, um resto de lucidez espicaçou-me a não olvidar a minha elevada responsabilidade lírica. Sim, porque eu poeta de maus versos, julgava-os bons! suficiente válidos para serem legados às novas e vindouras gerações. Portanto, porque era a Macieira, logo tratei no início do meu namoro com Inês, escrever o meu Testamento:

Auto-retrato do artista enquanto jovem

Sei que fui belíssimo.

Nas minhas fraquezas existi.

Fui um grego veríssimo,

Um fresco de Boticelli,

Um suspiro de Camões,

Uma vontade em ser.

Concentrei numa todas as paixões,

Mordi a maçã, caí no abismo

E solavei a terra como sismo.

Revirei, revolvi, tudo aos trambolhões!

Sobretudo fui, tentei ser,

Ousei sonhar alto sem desfalecer,

Sem perder a fé ou o ânimo,

Sem medos ou remorsos a roer,

Pois sei que fui belíssimo,

Fui um Ícaro nas asas dum amor,

Todo ele martírio e dor.

Fui um grego veríssimo

Nas fraquezas e nas forças.

Foram algumas.

Fui!


Apesar de tudo, os piores presságios não se confirmaram e durante anos pudemos construir uma relação sólida e também um pouco mais sóbria! Tínhamos um amor e uma cabana. Sobretudo um amor que não carunchava!

Com o tempo e certos ajustamentos fomos ganhando rotinas e cumplicidades, mas também bastante resistência à Macieira. Éramos inseparáveis, almas gémeas na cama, na cabana e na carreira! Pois acabámos por juntar forças e puxar um esquema: Inês tocava órgão e eu tirava fotos em festas de casamento. Também lançava cartas de Tarot e fazia outros truques de magia com a minha bela assistente. Com alguma perícia, ao fim de alguns copos-de-água, já nos abastecíamos de comes e bebes para o resto da semana e com as poucas despesas que fazíamos, com excepção das aspirinas... Não seria o Céu, mas também não estava mal de todo para um par de artistas de rua a actuar indoors… E tínhamos, sobretudo, bastante tempo livre para nos dedicar ao culto das belas artes... e das belas Macieiras!

Mas numa manhã de Maio, o carteiro - tal como no filme - tocou duas vezes. O tão ambicionado Juízo foi soprado à Inês na forma de carta: A Virtuosa pianista era chamada a prestar provas. Provas da sua reabilitação!

Metodicamente, depois de se recompor do choque emocional, com duas Macieiras e algum alarido de rajada, Inês arregaçou as mangas, fechou a garrafa e foi ressacar. Só algum tempo depois começou os ensaios, tocando dia e noite o bendito concerto a ser testado. Não tardou que tivesse a música na ponta dos dedos. Parecia perfeito… Sei lá… eu era melado, mas não tão melómano assim! Mas ela insistia e teimava que lhe falhava o dedo mindinho num dó em semi-fusa em certa passagem mais traiçoeira…

Num certo dia de ensaio, dedicou-se em exclusivo àquele trecho. Foram horas a fio, tocando o trecho como disco riscado, sempre encravando no mesmo risco de pó, pois uma e outra vez, se queicxava do mesmo a Inês: “falha-me o dedo mindinho no dó em semi-fusa, falha-me o dedo mindinho no dó em semi-fusa”. Bebeu uns copos de Macieira a ver se acalmava os nervos. Qual quê! Começaram os dedos a falhar mais teclas. E ela naquilo sem parar! Até que martelou enfim simplesmente o piano…

Eu mal respirava encovado sobre mim num canto à espera… que começasse a injuriar-me com todo o vocabulário feminista disponível:

“A culpa é toda tua, toda tua! Sufocas e suprimes-me toda a sensibilidade! “

E eu nada.

“Ficas pelos cantos a escrever, que é o que melhor sabes fazer. Ou antes, aquilo que gostarias tu de saber fazer porque nada escreves que se aproveite. Não escreves um peido, poeta parvo! Um poeta que rima… Ora onde é que já se leu, nos dias de hoje, poesia a rimar..? Por amor de Deus, não me faças rir, que mais teclas falho! E eu ainda tenho que aturar um machista! Sim, um machista! Dás de mamar a tua fraca fantasia com a minha demência, minha decadência e desventura!

Sim! Não faças essa cara! Vocês, homens… vocês homens são todos iguais! Todos iguais! A diferença entre ti e os outros é que, para além de contabilizares as que gajas que papas, também deitas contas aos versos que escreves…”

Ela estava nitidamente perturbada, agitava-se muito e espumava já da boca quando se lançou a mim. Na minha inocência ainda julguei que ia ser abraçado. Era bom era! Abraçou-me foi o pescoço! cerrando os seus longuíssimos e endurecidos dedos de tanto tocar piano.

“A culpa é toda tua, toda tua!”

Estava possessa e esmagava-me o peito com seus joelhos enquanto as mãos me estrangulavam o pescoço. “ A culpa é toda tua! Toda tua!” a minha nuca batia contra o soalho, “a culpa é toda tua!” e os meus olhos, turvados, já viam tudo a dissipar-se quando, de repente, a Inês se levantou de estalo. Ergueu-se muito alta, muito hirta e mirando os dedos, mirando-me a mim, tornando o olhar para os seus dedos e vendo-me estendido no chão, exclamou, revirando os olhos enquanto me desfalecia em cima o trágico suspiro: “escreve escriba, escravo da escrita, escreve!”

Velando incansável à sua cabeceira, lívido vivi o longo knock out de Inês, que sossegou durante 2 dias. Quando acordou, deu um pinote, pulou para o chão e exclamou jubilosa: “bom dia, alegria!” – acrescentando com líbido: “vai servindo duas Macieiras, que eu abro a lata de atum para o nosso pequeno-almoço.”

E se esta nossa história era até então macieira, mel ou drama... descambou, com este episódio, de vez para o drama!

A Inês abria lampeira a lata de atum, com aquelas mãos que ainda lhe tremiam da fraqueza e da comoção, com seus dedos descoordenados, quando – ai terrível maldição! “Aaaaaaaaaaaaah!”


Ao escutar aquele grito - “Aaaaaaaaaaaaaaah!” – larguei tudo, larguei até a Macieira e corri para a cozinha, deparando aterrorizado e sem pinga de sangue, com o dedo mindinho… o dedo mindinho da Inês, aquele que teimava em falhar o dó em semi-fusa, completamente ensanguentado pela abertura mal medida duma maldita lata de atum! Oh Cristo! Tinha-se cortado a Inês.

E decerto porque éramos duas almas perdidas, sem dúvida porque estivemos na presença de sangue, talvez porque a gata miasse e a Lua estivesse Cheia… quando eu, ao ver retalhado o dedo mindinho da Inês, exclamei aos 4 cantos da cozinha “Diabos me levem! Diabos me levem se não te salvo do vício da bebida, linda Inês!”; sucedeu que logo de seguida, o Mafarrico em pessoa, Ele mesmo, resolveu dar um ar da sua graça, já de copo de Macieira na mão!


Diante do Demónio, ficámos escancarados de boca aberta, mais parecendo os três pastorinhos diante da Nossa Senhora de Fátima: Eu, a Inês e a sua gata, a famosa “gata Sinatra”.

A “Sinatra” sei eu bem que viu o Capeta pois de pêlo eriçado raspou-se enquanto o Diabo esfregava um olho… A Inês viu e escutou a Coisa-ruim porque me disse: “olha que giro… Eu já não tinha uma visão alcoólica induzida ora… deixa ver… Ai! E fala e tudo! Esta agora! Está-me a pedir duas pedras de gelo…!”

Riu-se a Inês e partiu de abalada e em urgência para o Hospital São José onde lhe coseram – exagerou depois um pouco ela - 36 pontos no seu dedo mindinho…

E eu… bom, eu fiz o papel duma espécie de Irmã Lúcia invertida, escutando a pregação que Satã tinha a fazer aos homens e pondo-me à conversa com ele.

Belzebu não tinha nada de concreto para vos dizer, mas a mim disse-me ele muito. Primeiro, explicou-me que dado que eu nunca iria libertar a Inês do vício do álcool, viera buscar-me – para me poupar muitas maçadas e mais Macieiras. Todavia, fingindo comover-se, confidenciou-me que sendo eu um jovem tão talentoso, era de todo um desperdício levar-me já... deveria suspirar de alívio?

Eu desconfiava, claro! porque se insondáveis são os desígnios de Deus, necessariamente manhosos são os meios do Mafarrico… Como lhe fizesse ver isso mesmo, atalhou na bajulação, passou à segunda Macieira e propôs-me uma aposta.

“Uma aposta!” – Exclamei eu. “Para fazer uma aposta mais vale vender-te a alma não achas?”

Não, Satanás não estava de acordo. O Bode andava nas lonas e era agora um pobre Diabo. Um cibernauta – contava-me ele - através da Internet, fizera um gigantesco desfalque nas contas secretas que o Príncipe das Trevas tinha na Suíça e, pior que tudo, sucedera isso quando certos acordos com a Banca tinham sido firmados... “É triste dizê-lo – chorava-me – mas nos dias que correm, até o grande Lúcifer é um cordeirinho nas mãos da banca capitalista.”

Vivíamos tempos de crise. Tampouco o Diabo podia transformar pedras em pepitas ou fazer o milagre da multiplicação dos euros porque havia um pacto de estabilidade a cumprir. Sim, um pacto de estabilidade a cumprir! Ou vocês acham que foram os burocratas da União Europeia a cozinhar este purgatório..? Abram os olhos, meus amigos!

O Diabo ainda tentou o narcotráfico, mas nestes tempos tão agitados… as máfias russas têm mais poder de fogo e maior influência que o maquiavélico Mefisto.

“Uma tristeza” – Concluía o Arcanjo da Luz. “E tive de dedicar-me a negócios estúpidos e realmente marginais como vender Enciclopédias, carros em segunda mão e até “francesinhas”. Tinha, por isso, Lúcifer uma cadeia de fast-food baseada em “francesinhas”… “As francesinhas do Inferno com extra-picante!” – o que não deixava de ser diabólico: impingir às gentes inocentes comida com alto teor de gordura.

“Assim, como assim, sendo tu um talento por explorar – continuou ele – proponho-te uma aposta que nos pode render muito… muito, sem dúvida.” – e o Diabo esfregava as mãos de contente… – “Se tu escreveres todos os dias, até ao Solstício de Verão um poema para a Inês… Eu liberto-a do vício do álcool, publico-te a obra lírica que será um extraordinário sucesso literário, ganho milhões, ficas famoso e todos ficamos felizes… Que dizes filhinho..?”

“E se eu perder… “- retorqui…

“Se tu perderes deixo a Inês entregue a si mesma, que é como quem diz, à sua Macieira. Reúno o que possa dos teus versos e engendro-te um espectacular suicídio, pois toda a gente sabe que depois de morto o artista rende mais.”

“Mas assim nunca perdes Mefistófeles!”

“Por alguma razão ainda me chamam Diabo…”

Não pensem que eu não tinha confiança na capacidade do meu amor para salvar A Inês do vício do álcool… Mas publicar… Neste país, publicar poesia só com um grande padrinho ou pactuando com o Manhoso! Ora, como o meu padrinho é um bate-chapas ali na Av. Gago Coutinho… Resolvi apostar com o Mefistófeles. Tudo selado com boa Macieira, claro.


Então comecei a escrever. Escrevia para a Inês ou para o Diabo? Para minha vaidade ou para a sua salvação? Ainda hoje não sei! Sei que escrevia, tinha de escrever todos os dias. E não podia ser um qualquer poema rasca como:

"A Inês do meu castelo

Põe-me a ver tudo Belo,

Desde o Sol que é Amarelo

Até este ovo que eu estrelo."

Convém confessar que a nossa dieta era constituída algo à base de ovos, atum... e muita Macieira.

Não, não podia escrever coisas ranhosas que o Diabo não era parvo nenhum e queria ganhar dinheiro. Desta forma, para avaliar a qualidade das minhas criações, tratou de reunir o Clube de Poetas Mortos (líricos como eu que já tinham, entretanto, batido a bota). Não só tinha de escrever todos os dias um poema, como tinha também de ser uma espécie de obra-prima… De arrasar com os nervos de qualquer um, quanto mais os meus, que já eram tão delicados!

Eu todavia estava animado por um ideal: Salvar a Inês do vício do álcool, resgatando para o mundo essa virtuosa pianista que caíra na esparrela das Macieiras. E sabem que mais? Estava a dar baile ao Diabo! Escrevia desde os seus olhos verdes, aos eléctrico que apanhava a Inês para ir para casa…

0 28 da Carris

Há um eléctrico desejo

Percorrendo as colinas,
Dissipando as neblinas
Sobre o pardo, triste Tejo.

No vrum vrum da confusão
Vai de mansinho rolando,
Nos carris vai-se esquivando
Ao tropel do buzinão.

Pois lá dentro há uma paz
Envolvendo o nosso herói
- O peito já não lhe doi...
Conquistou-a, foi audaz!

Desde a Baixa até à Estrela
Com paragem no Castelo,
Em tudo vislumbra o Belo,
Pois não tarda, está a vê-la.

Dava ou não baile ao Diabo? E Mefistófeles, vendo que dançava à medida que o solstício se aproximava... maquinou um esquema: para não perder a aposta, engendrou-me uma acusação de plágio. Plágio... que descaramento!


Eu só usava originais! Se ainda fosse acusado de mau gosto ou mediocridade aceitava, que o poema em questão não era grande espingarda… Foi construído a partir duma passagem d' O Vermelho e o Negro que estava lendo... Agora plágio! Que grande lata! Simplesmente me inspirava...


Porém, a Verdade era o que menos interessava ao Mafarrico que, para além de mau, também não tinha bom perder


Apresentou queixa Mefistófeles ao Tribunal dos Poetas Mortos mas, ao contrário da Justiça portuguesa, o processo rolou com grande rapidez. Num ápice, enquanto o Diabo esfregava um olho, fui como que "teletransportado" e, sem saber muito bem como, vi-me numa sala de audiências com o juiz diante de mim:


E era ele senão… O Fernando Pessoa himself, encontrando-se muito bem conservado em álcool tal como já o fora em vida! A meu lado estava o Diabo, e atrás deste os seus advogados que eram – acreditem! - às centenas, aos milhões, às toneladas! Lírico como sempre fui, esquecera-me que às tantas… às tantas, 9 em cada 10 advogados iam direitinhos para o Inferno!

E olhem que eram mais do que as mães! Todos em linha, pesquisando processos, consultando códices, lendo legislação à procura dum precedente, duma falha qualquer, de um esquivo argumento jurídico com que pudessem condenar. Até deitavam fumo pelas orelhas, todos em fila, fato e gravata, quilos de gel no cabelo todo puxado para trás… que horror! Era mais intenso o cheiro do gel do que o cheiro a enxofre exalado pelo Diabo.

Ainda assim, não me ralei. No fim de contas, a razão estava do meu lado e o Fernando Pessoa à minha frente… como é que eu podia perder?

Só mesmo com jogadas sujas.


Modéstia à parte fiz uma defesa brilhante: a Macieira ajudou! Tão rebuscada foi - a Macieira -que até invoquei o Camilo na minha argumentação ao Juíz, afirmando que plágio era o Amor de Perdição, cópia barata do Romeu e Julieta, pois tanto num, como no outro, dois jovens amam-se apesar das desavenças familiares e do triangulo amoroso artificialmente criado por um primo parvalhão... No fim... No fim morria tudo...

Foi muita a minha conversa, mas maiores os pecados de Satã. Mas seria de estranhar? Se o Diabo não pecasse… quem pecaria? E na verdade, pecou o Mafarrico duas vezes: primeiro subornou o juiz e depois… foi de uma atroz avareza!

Não que tivesse pago pouco por debaixo da mesa ao Fernando Pessoa: as "francesinhas do Inferno", afinal pareciam ter saída! O problema, ou o pecado – se preferirem -, foi ter deixado de fora os seus heterónimos - dele Pessoa. Por fortuna era Quarto Crescente, a Lua ia alta e a personalidade dominante do momento era o Álvaro de Campos.

E o Álvaro de Campos, que não fora subornado e não podia ir beber umas genebras para o Martinho da Arcada, querendo pregar uma partida ao Diabo, resolveu fazê-lo a minhas expensas, não porque me enviasse a conta, mas porque decidiu.


Ajuizou ele, Álvaro de Campos, para que não sobejassem dúvidas, que eu, poeta lírico, para o ser deveras, teria de organizar a declaração poética de amor da minha geração. Se o fizesse, se fosse realmente um Poeta com P grande, ganharia a aposta, libertando a Inês do vício da bebida. Era pegar ou largar. E eu peguei num copo de Macieira!


O resto… bem, o resto fará eventualmente parte da história literária deste país.

Fui para casa a deitar contas à vida, matutando, reflectindo e tentando sacar um coelho qualquer da minha cartola. Não era fácil: "organizar a declaração poética de amor da minha Geração"! E como tinha em mãos um problema de escala, excluí, desde logo, o bouquet de flores, o "postal cantado" ou o ursinho de peluche... Não! Tinha de ser em grande e não apenas o gesto simbólico comprado em pechincha como prenda qualquer bem escolhida...

Era espinhoso, mas eu tinha uma vantagem: tal como a Joana d'Arque, também eu escutava algumas vozes dentro da minha cabeça e uma delas sugeriu uma abordagem mais matemática da tarefa em mãos... E foi pela estatística que espevitei!

Como assim..? Assim sendo: E se eu ao invés de fazer uma tatuagem com "amo-te Inês", fizesse um graffitti? E se invés do "amo-te Inês" escrevesse a quadra?


"Quisera eu ser o Pedro

Desta Inês tão galante,

Do me Castro seres rainha,

Ser teu cavaleiro andante"


E se em vez duma quadra, enchesse o país? Bom... um país seria complicado, mas forrar a faculdade onde fingíamos estudar.... talvez não fosse assim tão complexo! Como tinha uma péssima caligrafia, logo desisti do graffiti. Mas não era tudo uma questão de escala? Pois imprimi os versos com times new roman a 200 de tamanho e montei, como se fora um puzzle, 100 painéis de 1 por 1,5 metros.

Pedi as devidas autorizações, reuni o grupo de amigos do costume e colei tudo durante a noite sem que suspeitassem faculdade ou Inês... No dia seguinte, se não fosse a poesia, seria a matemática a produzir o efeito, senão reparem: numa escola onde estudavam cerca de 3000 raparigas, bastava que uma em cada cem se chamasse Inês para termos logo 30 possíveis destinatárias da mensagem amorosa... E em turma em que houvesse uma Inês, necessariamente, pela estatística dos nomes, teriam de haver dois ou três Pedros...

A curiosidade matou o gato? Contava com isso: Para "qual Inês" e "de que Pedro", seriam as incógnitas a levantar na equação amorosa calculada. E que equação! Mais do que na poesia, tinha eu fé na patologia! Por isso fiz não 1 mas 100 painéis, pois 1 seria bonito, mas 100 foram obsessivos!

E assim foi: absolutamente lindo! Quando na manhã seguinte 5000 alminhas transpuseram os portões da faculdade, a escola já não era a deles, mas antes um imenso altar lírico no qual incensara Inês. E ela?Inês chegou pelas 3 da tarde para tomar café na esplanada da escola e caiu de quatro. Naquele pequeno Cosmos, durante um ínterim, apenas houve um Pedro que queria ter uma Inês por rainha do seu castro... Ainda assim não se fiavam as gentes (tal é o cepticismo dos dias de hoje), crendo uma elevada percentagem de que tudo não passava duma campanha publicitária, peça treatral, lista para aAssociação de Estudanters... enfim! Mas com a devida chancela do Guru... deixou de haver (sequer!) termo de discussão possível: venci o Diabo, resgatei a Inês do vício do álcool e tive, nessa, a melhor noite de sexo da minha vida. Esforçara-me, não foi? Também tinha direito!

Tudo pareceia bem, mas ainda faltava escrever o fim da história e este conta-se já em duas palavras.


Liberta do alcoolismo, Inês, virtuosa pianista, deixou de falhar teclas e foi resgatada para música, mas desfinado fiquei eu.

É certo: vi a minha poesia ser publicada… Mas houve um problema técnico. Ressabiado por ter perdido a aposta, o Diabo resolveu vingar-se. E podia fazê-lo, pois as "francesinhas do Inferno" tinham-no catapultado para a fortuna fácil e como versos vendidos já não passavam de trocos... trocou-me as voltas!

Publicou efectivamente os meus poemas, pois até Mefistófeles tem o seu código de honra. O problema foi que a aposta não especificava a localização geográfica da publicação e como um bom cabrão que era, o Mafarrico publicou os meus poemas escritos na língua de Camões... na terra dos Vikings! Reparem que não se tratava, sequer, daquelas publicações bilingues, tipo português-islandês. Não! O Diabo descaradamente editou os meus versos na Islândia sem tradução alguma.

Uma miséria! Nem sequer pude assistir ao lançamento da minha obra por não ter como pagar a passagem aérea, pois continuava sem um chavo no bolso e completamente ignorado pelos círculos literários do país - tanto no nosso, como na vikinglândia! Um enorme "sucesso", portanto: o embaixador português na terra do gelo comprou um livrito por frete e ofereceu dois no Natal.

Pior! Tinha ficado com os nervos esfrangalhados. Não era fora fácil, sabem? Lutar contra o Diabo, aturar as crises nervosas da Inês e ainda ter de escrever obras-primas todos os dias durante meses a fio, acabando por fazer a declaração de amor da minha geração… Ufa! Estava de rastos.

No fim, secara, esgravatando e nada! A inspiração tinha-se ido e já nada mais escrevia, senão arabescos. Bebi! Bebia muito e sem destino, até que ganhei eu um problema com o álcool, pois não era então suficientemente adulto para compreender os processos segundo os quais me tornara num idiota insuportável, justapondo amargura e narcisismo, tudo embrulhado numa obsessão fatalista pelos efémeros 15 minutos da fama fácil.

E de tal forma caí fundo, pela garrafa dentro, que à minha linda Inês, virtuosa pianista, outra partitura não lhe restou senão dar-me um pontapé nos tomates [literal] e chutar-me para fora da sua vida… Até hoje. Até sempre?



Rui Faustino
o Pedro que procura Inês