11/10/2010
Sonhos singelos
Quero que um dia
As nossas mãos mirradas,
Entrelaçadas como ramos,
Sejam capazes de colher os frutos
Que dois corações germinaram.
Sim! Gostava que vingasse
Que o nosso amor ganhasse raízes,
Crescendo entre mimos e cuidados.
E tornando-se frondoso,
Pelos anos fora,
Florescessem dele rebentos
Aspirando o Céu.
7/22/2010
Diz-me
Diz-me porque fiz isto.
Diz-me porque não resisto.
Diz-me porque me dispo
Com a fé dum Cristo
Pregando aos fiéis a oração,
E entrego-te, corpo e alma,
Nas tuas mãos, na tua palma,
O que resta da minha razão?…
Porque te escrevo e me escravizo?
Porque não jugulo a falta de juízo
Num colete-de-forças exilado
E serenado a sedativo?
Diz-me porque de ti sigo cativo,
dum sonhar transfigurado...
Dizes-me?
7/21/2010
A menina Azul
A Menina Azul desceu, desceu,
Dos céus desceu num raio de luz
Desse luar que a todos seduz.
Vinha da Lua, lá donde nasceu,
Vestida num manto com as cores Sul
E trazendo nos olhos... os céus de Istambul!
Até os seus lábios eram diamantinos,
Lembrando os rios de tão cristalinos.
Nos cabelos trazia… o mar, maresia,
A Menina Azul, azul fantasia…
Num manto de espuma em paul alagado
A Menina Azul poisou delicado!
E calada a charneca com o coaxado…
Consagraram-se os sapos ao anjo azulado.
7/10/2010
uma vez conheci uma Cinderela da Bobadela
Cinderela Sofia
A meio da noite por vezes responde
Dum manto de brumas de melancolia
Para onde lesta logo se esconde.
Cinderela Sofia, frio cristal,
Coração de veludo feito farrapo
Por morder a maçã… Ou beijar o sapo?
- Murmura o vento em tom glacial!
Cinderela Sofia envolta nos véus
Desse mistério que vai de abalada
Soadas as doze na noite calada,
Esfíngico vulto intrigando os céus,
Sombra de esguelha nos muros caiados,
Nuvem perdida…Pairando em cuidados.
7/07/2010
o mel da minhota
Ai o mel desta minhota
e o saída que é do favo!
Com doçura desta cavo
sepultura assaz marota...
Mas do mel não beijo gota,
nem lhe escuto mais zumbido...
No enxame estou perdido
- bateu asas a garota!
Todavia há um ferrão
mui cravado com ardor:
Sinto grande inflamação
s’ esvoaça o meu amor.
E tal qual aquela abelha
que de flor em flor namora,
ela vem, poisa de esguelha,
mal ferrou foi logo embora.
7/03/2010
a ilusão
E será que agora eu chego
sorrateiro pela frecha,
disparado como flecha
ao alvo do pensamento?
E será que já vivemos
este amor a dois, não menos,
e tu fazes juramento
lá no escuro que me amas?
E será que por mim clamas
e que beijas o meu nome,
no travesseiro fraldado
a linho branco imaculado
do amor que me consome?
7/01/2010
Aparição
Mortiça, sem mácula ou mistérios,
Recusando a Existência transgredir…
A mecanizada marcha dos sidéreos,
Conduzia as noites brancas por dormir.
E os silenciosos dias de cimento,
Descarnados da concreta substância,
Esventrando por opaco esquecimento,
Dissecavam fait-divers de ressonância.
Estátuas gregas na apatia dum encanto,
Apaziguadas sob estática omissão,
Nesse mundo gravitando sem espanto…
Testemunhavam a perene lassidão.
Tudo era exacto, regular, sem excepção:
Até que fez um anjo improvisada Aparição.
6/24/2010
Destino
Para a oportunidade que chega perdida,
Para o desencontro cego, surdo e mudo,
Até para o beco barrado por muro sem saída.
Há para todos um Plano que já foi escrito:
Uma trama que está tecida, toda enlaçada,
Um guião irrefutável, não rasurado e infinito,
Com a nossa representação à priori projectada.
Há pequenas misérias e grandes amores
E caleidoscópios cegando todas as cores.
Não há um novo amanhã, tampouco o fim,
Como a nota prolongada pelo cálido clarim
Evocando os mortos, na portentosa parada,
Dos sonâmbulos seguindo a ébria desgarrada.
6/23/2010
a Starlet
Como são folhas caídas,
Como vidas destruídas
São às mãos duma starlet!
Dela quis eu ser poeta,
Elegi-a minha diva…
Mas manhosa e muito esquiva,
Ela fez de mim pateta.
Fui mais um da colecção,
Outro boneco insuflado,
Simples cromo encartado,
Souvenir da sedução!
6/20/2010
A maldição
O feitiço foi feito.
Não há volta nem jeito
De escapar ao estabelecido.
Mágicos símbolos pintados
No solo sulcado… Um pentagrama.
Óh esquecidos Deuses invocados:
Enrabichai-me vós esta Dama.
“Estiveres tu onde estejas,
Por diferentes que sejam os céus,
Por mais olhos que vejas…
Neles verás sempre os meus.”
E assim, entre a loucura e a paixão:
Foi lançada, foi lançada, foi lançada a Maldição!
6/12/2010
o Bailado
O rumor do arvoredo
Balouçando pelo vento…
Escuto agora e já atento
Eu percebo como cedo,
À memória me assaltou
O frufru do teu vestido,
Que me sopra esbaforido
Esse vento que amainou
E que as copas ondulava
Numa vaga toda verde,
Bem viçosa e sem a sede
De ti. Com saudade que abrasava…
Pressenti eu no bailado do pinhal,
Essas valsas que dançámos menos mal.
6/09/2010
Portugal
Quebrado o fio da vontade,
Resta senão viver a Saudade
Do que morreu acorrentado em mim:
Prometeu e a prometida Aurora,
A redenção vinda na derradeira Hora.
Perdido porém no percurso, fiquei e sou,
Uma cálida centelha que mal flamejou.
Esquivou-se primeiro o Destino,
Escapa-se agora o querer,
Sonhos de outrora vencidos
No Ocaso do entardecer.
Esfumam-se os céus da vã Glória
E sobeja somente... sentida memória.
6/03/2010
Porquê?
Não tenho explicações científicas.
Teorias complexas são trapalhadas,
São postiças verdades engalanadas
A sofismas e lógicas miríficas
Que doutos mestres em sociologia,
Inchados pavões no seu orgulho,
Apresentam como jóias o entulho
Que soterra uma tão fraca fantasia.
Ai o rigor científico e racionalista,
A matemática e o pensamento geométrico,
Como tudo é terrivelmente tétrico!
Pois tal saber quero eu perder de vista!
Perguntaste-me as razões porque te quero…
E sei dizer-te apenas que é um querer sincero.
5/30/2010
o Adultério
O Diabo que chama,
O desejo que tenta,
Foste o sal e a pimenta
Num tempero carnal,
A volúpia encarnada,
Foste o vício do mal
Em mulher… bem casada!
Suspendeste a aliança
Numa total incúria…
E sob provisória fiança
Libertaste-me a luxúria,
Com rendas de mistério
Teceste tu… O adultério
Numa noite toda a fio
Enlaçando o nosso cio.
5/29/2010
ABC
Busquei-te, belíssima boreal, brilhantemente.
Mecha em mãos mantive misticamente
Acesa, ardendo a afoitada arte
Feita de furar e fuçar forte… Febrilmente!
Saí, saltei, subi, sempre a sondar.
Cantei, corri, cumpri o chão a calcar,
Por pés pisando, pesando, penosamente.
Reagi! Rapidamente rasei rios, respectivas ravinas.
Nunca neguei a ninguém o teu nobre nome.
Oculto ouvi-o na odisseia por obscuras oficinas.
Tratei, tenaz de trotar a tempo que tome
De dar com duvidoso destino da diva dançando.
Embalei, embora esquecido de estar eu errando.
5/25/2010
Epitáfio
Sei que fui belíssimo.
Nas minhas fraquezas existi.
Fui um grego veríssimo,
Um fresco de Boticelli,
Um suspiro de Camões,
Uma vontade em ser.
Concentrei numa todas as paixões,
Mordi a maçã e caí no abismo,
Solavei a terra como sismo.
Revirei, revolvi, tudo aos trambolhões!
Sobretudo fui, tentei ser,
Ousei sonhar alto sem desfalecer,
Sem perder a fé ou o ânimo,
Sem medos ou remorsos a roer.
Sei que fui belíssimo,
Fui um Ícaro nas asas dum amor,
Todo ele delírio e dor.
Fui um grego veríssimo
Nas fraquezas e nas forças.
Fui!
5/19/2010
Um último cigarro
Sente-lo para lá da barreira,
Da teimosa soberba e sobranceira
Marcha de pensamentos em motim.
E sentes, também mirando a noite,
No cântico dos Deuses Ocidentais,
Murmurado pelos ventos estiais,
O desejo que o travesseiro te acoite
Do açoite do dia derramado
Por vãs vaidades quando
- quem sabe a que mando!
Se calam as vozes do coro afinado
E desces o pano, a colcha de linho,
Deitando indolente e em desalinho.
5/17/2010
A lua
Bem sei que a Lua ansiosa,
Argentina, prateada e toda Cheia
Como os favos, com o mel duma colmeia,
Adoçava a negra noite d’ amorosa
Deleitada na terceira das colunas,
Aguardando num Minguante a boa Nova
Que iluminasse o mistério que umas runas
Intrigavam como a letra duma trova,
Sendo escrita num Crescente pela Lua,
Gravitando em teu redor e pela rua,
Sombreando nas paredes o teu vulto
E tornando-me um amante resoluto.
5/15/2010
Na torre encerrada
A donzela de olhar doce,
Triste porém como os corvos,
Aguardava o príncipe que fosse
Bordão e apoio por entre estorvos.
A donzela de olhar sonhador
Melancólico porém como o clamor
Do vento de Outono, trauteava a melodia
Cuja letra anunciava “ele viria, ele viria”….
A donzela de olhos castanhos,
Por sua vontade na torre encerrada,
Esquivando juízos, olhares estranhos,
Vivia perdida, suspensa, encantada,
Cega aos dias luzindo maduros
Pelas profecias e clarões futuros.
.
5/11/2010
Quisera eu Ser
Não te digo quem sou,
O que faço ou o que tenho,
se o mistério aguçou
tanta falta de engenho!
Quisera eu ser o Pedro
Desta Inês tão galante
Do meu Castro seres rainha,
Ser teu Cavaleiro andante.
II
Quero que sejas o Graal,
Meu Destino, Fé Cruzada!
Tu serás o Ideal,
O amuleto, a crença amada.
Quero ser um Parsifal,
Arrojado e mui cortês,
tornar-me no teu fatal,
Ser teu Pedro, minha Inês.
